menu

E a IA?

Ninguém mais morre até ser deletado

Nos últimos dias circularam informações de que a Meta, dona do Facebook, Instagram e WhatsApp, registrou uma patente para um sistema capaz de manter uma conta ativa nas redes sociais mesmo após a morte de seu proprietário. Assim, o morto se manteria vivo no ambiente digital

Por: Adalberto Viviani

Créditos: Reprodução/Acquired

Todos têm o direito sobre seu próprio corpo. Deveriam ter sobre sua construção simbólica e narrativa

00:00
Modo claro
Modo escuro
A+ A-
  • Artigo discute a criação de "entes digitais" pós-morte através de IA, utilizando dados da vida da pessoa para simular sua presença e interação contínua.
  • A matéria aborda implicações éticas e morais do uso de IA para manter uma presença digital de falecidos, incluindo o direito ao esquecimento e o risco de manipulação.
  • O texto explora o perigo de terceirizar decisões aos mortos através da IA, usando-os como "álibi emocional" e transformando-os em entidades consultáveis.
  • A matéria alerta para os riscos jurídicos do uso de "testemunhos pós-morte" gerados por IA em disputas, levantando questões sobre a autenticidade e a manipulação de dados.

A ideia é simples de explicar: se você implanta numa plataforma de IA o repertório de uma vida textos (postagens, cartas, fotos, vídeos, entrevistas, opiniões, preferências, padrões de fala, reações a temas) você pode produzir um ente digital que continua performando presença. A consciência digital continuaria vagando e se manifestando como que mandando sinais pós morte, interagindo com a vida digital mas, de fato, intervindo no mundo real.

A separação didática entre real é virtual está, a cada dia, desmoronando. O que acontece no universo virtual implica na vida real. Não são realidades paralelas. A IA parece destruir ainda mais a separação. Não raro vemos conteúdos sobre pessoas que desenvolvem relacionamentos com chatbots. Outras consultam a IA para tomar decisões em relação a vida afetiva. Fazer terapia em um diálogo com uma plataforma está virando hábito. São muitas as atividades em que o outro – um conjunto de algoritmos que com o tempo se adaptam a quem somos e constroem uma semântica de aproximação, se manifesta e nos agrada.

Leia também:

A questão do morto insepulto é mais uma face desse descompasso. É a tecnologia fazendo com que cada um tenha para si o direito a manter um morto como zumbi digital contaminado primeiro pela curiosidade e, depois, pelo egoísmo. O corpo é imerso no formol da tecnologia e transformado em morto-vivo. Os últimos de nós vagando pelas redes sociais.

Todo ser humano tem o direito ao esquecimento. Isso tinha relação com o que poderiam ler sobre nós nas ferramentas de busca ou no universo digital. Esse direto tem, agora, que ser ampliado. Todos têm o direito sobre seu próprio corpo. Deveriam ter sobre sua construção simbólica e narrativa. Morrer é encerrar a possibilidade de ser convocado a cada debate, a cada conflito, a cada saudade. É ganhar silêncio.

Uma IA pós-morte rompe esse repouso. Ela não preserva a lembrança: mantém a produção. É trabalho escravo. O discurso de homenagem pode esconder uma incapacidade coletiva de viver a ausência. A tecnologia promete conforto, se transforma em exercício de ego: a recusa em perder e aceitar que o outro não está mais disponível. É um altar em casa que mantém o ícone falando.

Há ainda um desvio moral mais duro: a covardia de terceirizar decisões ao morto. “Não é o que quero, é o que ele gostaria.” Essa frase é uma máquina de isenção. A pior covardia é implicar o morto na escolha de quem ficou vivo: usar o falecido como álibi emocional, político ou familiar.

Quando um perfil “continua falando”, ele deixa de ser pessoa e vira entidade. Um oráculo moderno sempre consultável, coerente, pronto para responder de maneira inequívoca e infalível. Só que as circunstâncias mudaram. O mundo muda. No entanto a pessoa morta não muda mais. Assim, a IA precisa escolher entre congelar a persona (e transformá-la caricatura) ou promover uma evolução adaptativa com novos dados criando uma falsificação criativa.

Os riscos só aumentam. Com o formato adaptativo, a inteligência artificial vai construindo conforto nos diálogos, gerando a sensação de proximidade. Assim, a cada interação, ela parece mais verdadeira. Mas torna-se cada vez mais perigosa porque entrega é plausibilidade, não veracidade.

O cenário pode ainda ficar turvo no campo jurídico. Um corte rápido sobre uma disputa por herança entre dois personagens. Um deles utiliza como artimanha implantar em uma plataforma todas as mensagens, postagens, textos, cartas etc., que dizem respeito a si. Mas também o conjunto de pensamentos do falecido. Com base nesse conjunto de coisas é possível surgir um testemunho pós-morte revestido de intenção.

Numa divisão de herança, alguém poderia dizer: “os mortos falaram”. E o julgamento seria empurrado a discutir se a fala é do falecido, do modelo, do curador que selecionou dados, ou da plataforma que ajustou pesos e filtros. A contradição aqui é brutal: a mesma tecnologia vendida como cuidado com a memória pode virar instrumento de litígio, chantagem moral e manipulação probatória.

Independente da iniciativa divulgada da intenção da Meta em registrar a patente do sistema, já é possível prever – e certamente previsível que já estejam utilizando, o uso de chatbots para colher opiniões dos mortos. Estes, que antes peregrinavam pelo além, agora debatem-se com algoritmos, A eternidade se mantém até que haja um bug ou o sistema caia ou seja hackeado por alguém que, enfim, decida que os mortos têm o direito de morrer.

Adalberto Viviani

Jornalista especializado em comportamento de consumo. Apaixonado por tecnologia e desvendando o universo da Inteligência Artificial.

25 de fevereiro de 2026

recomendadas