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O novo luxo é não parecer com ninguém
Em um cenário dominado por algoritmos e tendências replicáveis, consumidores e marcas redescobrem o valor da autoria, da identidade e da expressão individual
Créditos: Divulgação
Usher durante show usando figurino produzido pela Artemisi
O vestido já não é apenas tecido, corte e caimento. Em 2026, ele pode emitir luz, sugerir movimento, reagir ao corpo, combinar resina com cristais aplicados manualmente ou transformar uma entrada no tapete vermelho em uma experiência visual quase cinematográfica. Nas últimas temporadas de moda, peças futuristas deixaram de aparecer apenas como experimentação conceitual e passaram a ocupar espaço central em passarelas, premiações, shows e campanhas de luxo. A alta tecnologia deixou de ser apenas referência visual para se tornar uma maneira de pensar roupa, imagem e presença. Nesse cenário, a moda deixa de cumprir apenas função estética e passa a operar também como experiência visual e sensorial.
Esse movimento não acontece isoladamente. A popularização da inteligência artificial, o crescimento das experiências imersivas, o avanço da cultura gamer e a estética hiperconectada das redes sociais criaram um ambiente cultural em que moda e tecnologia passaram a dialogar de forma permanente. Segundo o relatório “The State of Fashion 2026”, publicado pela consultoria McKinsey & Company em parceria com a Business of Fashion, marcas de luxo e designers independentes passaram a investir com mais intensidade em inovação estética, processos híbridos e experiências visuais capazes de gerar impacto digital e valor cultural. O estudo aponta que consumidores mais jovens buscam peças associadas a identidade, experimentação e narrativa visual, especialmente em mercados ligados ao entretenimento e ao luxo performático. Esse ambiente favorece o crescimento de uma moda menos silenciosa e mais conectada ao espetáculo, à imagem e à cultura digital.
No palco, no red carpet ou na semana de moda, a roupa deixa de funcionar apenas como styling e passa a operar como extensão da performance. É justamente nesse território que nomes brasileiros começam a ganhar projeção internacional. A estilista Mayari Jubini, fundadora da Artemisi, faz parte desse movimento, ao desenvolver peças que misturam impressão 3D, metais, estruturas rígidas, pintura hiper-realista e elementos motorizados. “Eu entendo que eu não faço só uma peça de roupa, eu faço também um item de arte”, afirma. Segundo a estilista, que já teve suas peças usadas por artistas como Katy Perry, Demi Lovato e Usher, a Artemisi nasceu justamente da vontade de romper limites tradicionais da moda e posicionar as peças em lugares inesperados.
A transformação do luxo contemporâneo ajuda a explicar por que a moda futurista ganhou tanta força nos últimos anos. Se até pouco tempo atrás a tendência do clean aesthetic apostou em minimalismo, discrição e peças silenciosas, o cenário atual aponta para o extremo oposto. Estruturas tridimensionais, texturas industriais, superfícies metálicas e roupas que criam ilusão de movimento passaram a ocupar espaço central nas coleções de marcas internacionais e designers autorais. Mais do que demonstrar sofisticação material, essas peças buscam provocar reação visual e gerar experiência sensorial. O luxo deixa de ser apenas posse para se tornar impacto imagético e presença cultural.
Nesse contexto, a tecnologia deixa de operar como ferramenta invisível de produção e passa a integrar a própria narrativa criativa da roupa. Impressão 3D, modelagem digital, materiais híbridos e técnicas industriais começam a dividir espaço com bordados manuais e acabamentos artesanais. Segundo o relatório “Fashion Tech Forecast 2026”, da plataforma WGSN, a indústria da moda vive uma fase de convergência entre inovação tecnológica e desejo por peças emocionalmente marcantes, especialmente em segmentos ligados ao entretenimento e ao luxo experimental. O estudo destaca que consumidores passaram a valorizar roupas capazes de produzir sensação de exclusividade visual e presença performática. A roupa deixa de ser apenas produto e passa a funcionar como linguagem visual.
Na Artemisi, essa combinação entre técnica industrial e trabalho manual aparece como princípio criativo. Mayari afirma que, mesmo quando a peça utiliza impressão 3D, existe um processo artesanal longo até o resultado final. “Para chegar no nível de peça que a gente trabalha hoje, tem um processo manual imenso depois, que inclusive é muito mais longo do que a própria impressão (3D)”, afirma. Segundo ela, depois da produção da peça começam etapas de lixamento, preparação manual, pintura, verniz e acabamento, muitas vezes realizadas ao longo de dias. A estilista afirma que algumas peças já ultrapassaram 70 mil cristais aplicados manualmente ou mais de 10 mil metais montados individualmente. “Esse processo manual, que fala muito do nosso high fashion, serve de base para toda essa tecnologia”, diz.
A própria ideia de roupa estática passa a ser questionada nesse cenário. Peças motorizadas, estruturas rígidas que criam ilusão de movimento e materiais que modificam textura ou percepção visual ajudam a ampliar os até onde, tradicionalmente, a moda pode ir. “Eu não limito uma peça da Artemisi a nada. Então ela não tem nenhuma barreira”, afirma Mayari. A estilista explica que gosta de trabalhar com diferentes técnicas justamente para posicionar a roupa em territórios inesperados, próximos da arte e da performance. “Ela pode ser uma peça que se move, ela pode ser uma peça tridimensional, ela pode ser uma peça que sugere movimento através de uma pintura hiper-realista”, diz. Segundo ela, o movimento físico ou sensorial funciona como maneira de retirar a peça do lugar óbvio.
A presença de estilistas brasileiros nesse circuito futurista internacional também revela uma mudança na percepção da moda nacional. Durante décadas, parte da indústria internacional associou a criação brasileira a códigos tropicais, estampas exuberantes e referências ligadas ao verão. Nos últimos anos, porém, designers brasileiros passaram a disputar espaço justamente em territórios ligados à inovação estética, construção de imagem e experimentação técnica. Esse movimento se fortaleceu especialmente em semanas de moda, figurinos de palco e no mercado global de celebridades. A moda brasileira começa a circular menos como regionalismo e mais como linguagem autoral contemporânea.

Créditos: Divulgação
Legenda: A estilista Mayari Jubini, fundadora da marca Artemisi
Mayari Jubini rejeita a ideia de que a criação brasileira precise obedecer a um repertório visual específico para ser reconhecida como nacional. “Moda brasileira é moda feita por brasileiro, acabou. Não é estereótipo”, afirma. A estilista defende que limitar a criação a símbolos visuais pré-estabelecidos reduz o potencial artístico das marcas nacionais. Segundo ela, o poder da Artemisi está justamente na construção de um universo próprio, capaz de dialogar com diferentes culturas e mercados. “A gente já fez roupas para artistas da China, da Tailândia. Olha o poder dessa criação: ela nasce aqui e chega do outro lado do mundo”, diz.
O avanço desse tipo de estética no Brasil também encontra espaço em eventos como o São Paulo Fashion Week, que passou a incorporar com mais frequência desfiles experimentais, tecnologias de modelagem digital e apresentações próximas da performance artística – como o da própria Artemisi, na SPFW N58, em 2024. Nos últimos anos, o evento ampliou discussões sobre inovação, inteligência artificial e novas linguagens visuais dentro da moda nacional. Mais do que apresentar tendências comerciais, a semana de moda brasileira vem funcionando como laboratório criativo para estilistas interessados em explorar processos híbridos e formatos não convencionais. Essa mudança acompanha também o crescimento de uma geração de criadores interessados em misturar moda, arte digital e cultura pop.
Ao mesmo tempo, o crescimento da visibilidade internacional de artistas brasileiros ajuda a impulsionar esse movimento. Quando cantores e performers utilizam peças futuristas em turnês, videoclipes ou tapetes vermelhos, a roupa passa a circular globalmente por meio das redes sociais e plataformas digitais. Isso amplia o alcance de designers independentes e transforma o figurino em ferramenta de posicionamento cultural. “A Artemisi conseguiu uma força muito grande fora também, justamente por conta dessa imagem muito poderosa, muito forte, que atravessa qualquer fronteira”, afirma Mayari. Segundo ela, a marca recebe contatos internacionais diariamente, impulsionados justamente pela circulação digital dessas imagens.
A aproximação entre moda e entretenimento ajuda a explicar por que artistas passaram a investir com tanta intensidade em roupas tecnológicas e futuristas. Em um cenário dominado por redes sociais, vídeos curtos e circulação instantânea de imagem, o impacto visual ganhou importância estratégica. O figurino deixou de ser apenas complemento estético e passou a operar como elemento narrativo da identidade pública de artistas de todos os nichos. Uma roupa capaz de gerar surpresa ou criar experiência visual possui potencial de circulação muito maior nas plataformas digitais. A lógica da imagem hipercompartilhável alterou profundamente a maneira como performers se apresentam ao público.
Segundo Mayari, o processo criativo muda completamente quando a roupa é pensada para palco. Ela explica que, nesse caso, a funcionalidade precisa caminhar junto da construção visual, já que a artista precisa dançar, pular e se movimentar durante a apresentação. “A técnica precisa ser muito bem dominada”, afirma. A estilista conta que também existe um estudo sobre o que aquela imagem pretende comunicar naquele momento específico da carreira. “Às vezes o objetivo é posicionar a artista como fashion, então a gente constrói essa imagem”, diz. Para ela, o figurino contemporâneo precisa funcionar simultaneamente como roupa, narrativa visual e ferramenta de posicionamento cultural.
Esse movimento também acompanha a ascensão de estéticas ligadas ao universo gamer, cyberpunk e sci-fi no mainstream cultural. Filmes, videogames, experiências digitais imersivas e plataformas de realidade aumentada influenciaram diretamente o repertório visual das novas gerações. Elementos antes associados à ficção científica passaram a integrar campanhas de moda, maquiagem, cenografia e design de produto. Segundo o relatório “Culture Forecast 2026”, do Pinterest, buscas relacionadas a estética futurista, metalizada e cyber aumentaram globalmente entre usuários mais jovens, especialmente em conteúdos ligados a moda e beleza. A estética do futuro passou a operar também como linguagem pop.
Para Mayari, existe uma razão simbólica para o fortalecimento dessa estética neste momento histórico. “Quando alguém veste uma roupa assim, comunica que está além do presente”, afirma. Segundo a estilista, artistas utilizam esse tipo de visual justamente para transmitir inovação, modernidade e ruptura estética. Ela acredita que o público passou a associar essas roupas à ideia de avanço e experimentação cultural. “Quando uma artista usa uma peça desse tipo, ela comunica modernidade, inovação, que está à frente do tempo”, diz. Esse imaginário se expande porque celebridades funcionam como difusoras culturais e influenciam diretamente o comportamento visual do público.
A tecnologia na moda contemporânea também se conecta diretamente ao avanço da inteligência artificial e das experiências digitais imersivas. Nos últimos dois anos, grandes marcas passaram a utilizar IA em etapas ligadas a logística, previsão de demanda, modelagem virtual e desenvolvimento de campanhas. Ao mesmo tempo, ambientes digitais, avatares hiper-realistas e experiências híbridas entre físico e virtual ampliaram as possibilidades criativas da indústria. Segundo relatórios publicados pela Deloitte em 2026, empresas de moda e luxo intensificaram investimentos em tecnologias capazes de integrar personalização, visualização digital e interação em tempo real com consumidores. O setor vive uma fase de aproximação acelerada entre criatividade, dados e experiências sensoriais.
Apesar disso, estilistas e criadores seguem defendendo a importância da dimensão humana dentro do processo criativo. “Não tem como a inteligência artificial substituir o criativo humano”, afirma Mayari. Segundo ela, a IA possui enorme potencial técnico, mas ainda não consegue reproduzir repertório emocional, memória e experiência humana. “A alma da moda é totalmente humana, porque a criação envolve memória, afeto, experiência, vivência”, diz. A estilista afirma utilizar tecnologia apenas em processos técnicos específicos, sem transferir à inteligência artificial a etapa criativa principal. Para ela, o avanço tecnológico tende inclusive a aumentar a valorização do trabalho manual dentro da indústria.
Esse movimento já aparece em segmentos ligados à alta-costura, bordado artístico e produção sob medida. Em um cenário de automação crescente, peças produzidas artesanalmente tendem a ganhar status ainda maior dentro do mercado de luxo. “Com o tempo, o que vai ser muito valorizado é o trabalho manual, porque os processos estão ficando cada vez mais automáticos”, afirma Mayari. A estilista acredita que roupas bordadas, pintadas à mão ou produzidas artesanalmente devem ganhar ainda mais relevância nos próximos anos. Segundo ela, o Brasil possui mão de obra criativa altamente qualificada e capaz de ocupar espaço importante nesse novo cenário global.
Quando olha para o futuro, Mayari acredita que roupas responsivas ao corpo e ao ambiente devem se tornar cada vez mais presentes na indústria. “A gente já tem peças que se adaptam ao corpo e ao ambiente”, afirma. Segundo ela, a próxima fronteira está na relação entre tecnologia e comportamento, com peças capazes de reagir de forma mais profunda às experiências humanas. A estilista acredita que tecidos inteligentes, estruturas adaptáveis e materiais tecnológicos devem avançar rapidamente nos próximos anos. Ainda assim, ela afirma que o aspecto mais fascinante do futuro continua sendo aquilo que ainda não pode ser previsto. “O mais interessante é justamente a surpresa, a emoção com o que ainda vai surgir”, diz.
Jornalista de lifestyle. Moda, beleza, gastronomia, esportes e tecnologia sob o olhar das tendências que movem a vida cotidiana.
15 de maio de 2026LifesTec
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