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Música Sem Tela: como a era do streaming matou os grandes hits de cinema

A trágica partida de Glen Hansard nos lembra de um tempo em que as trilhas sonoras escapavam dos filmes para virar patrimônios culturais compartilhados

Por: Tiago Souza

Créditos: Divulgação

Hoje, antes de dormir, deixe Falling Slowly rodar no seu fone de ouvido e perceba como, na nuvem, a música sobrevive

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  • Glen Hansard, músico irlandês, morreu em acidente de moto em Dublin, surpreendendo fãs e admiradores.
  • Sua canção “Falling Slowly”, trilha de *Apenas Uma Vez* (2006), venceu o Oscar de Melhor Canção em 2007.
  • A obra foi um dos últimos hits orgânicos a escapar da tela e se tornar hino independente no mundo real.
  • O texto afirma que, na era do streaming, essa passagem de músicas de cinema para sucesso popular tornou‑se quase impossível.

O nome do músico irlandês Glen Hansard já há algum tempo havia deixado de ocupar os lugares mais altos dos veículos de imprensa. Sua trágica morte recente, em um acidente de moto em Dublin, pegou de surpresa seus admiradores e os fãs do filme que o alçou a públicos maiores: “Apenas Uma Vez” (Once, 2006).

O longa é a história honesta de duas pessoas simples que descobrem a música como elo comum. Mas foi sua canção principal Falling Slowly, vencedora do Oscar em 2007, que se sacramentou na história. A partida de Hansard nos força a encarar um fenômeno moderno: Falling Slowly foi um dos últimos grandes fenômenos orgânicos de uma música que escapou da tela para virar um hino independente no mundo real.

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Hoje, na era do streaming, esse tipo de travessia se tornou uma missão quase impossível. A mesma tecnologia que facilita o acesso a qualquer canção acabou pulverizando a nossa atenção, tornando inviável a criação de monumentos musicais compartilhados.

Ecossistema que não existe mais: de The Wonders às novelas da Globo

No passado, a escassez de canais de distribuição criava fenômenos massivos. Quem não se lembra de That Thing You Do, da banda fictícia The Wonders (do filme de 1996)? Composta exclusivamente para o longa, a faixa ganhou as rádios do mundo e alcançou o 41º lugar na Billboard. Décadas antes, a TV americana já havia feito o mesmo com The Monkees, transformando um quarteto fictício de série em uma banda real que perdurou até 2021.

Aqui no Brasil, nós tínhamos o nosso próprio e poderoso rolo compressor de hits: os CDs de novelas da Globo. O ecossistema era perfeito. A música tocava na cena das oito, o telespectador corria para a loja de discos no dia seguinte e a faixa virava um sucesso nacional absoluto, totalmente descolada da trama da TV. Havia uma centralização de mídia que criava um repertório comum para toda a sociedade. Com o fim da venda direta de CDs e a migração para as playlists personalizadas do streaming, esse funil centralizador simplesmente deixou de existir.

Linda Linda e Solanin: o resgate de outras eras

O cinema japonês também usava essa força centralizadora de formas alternativas. Na comédia dramática “Linda Linda Linda” (2005), uma banda de estudantes resgata a canção homônima do grupo punk The Blue Hearts, que já havia encerrado as atividades dez anos antes. O filme funcionou como o vetor físico que apresentou o punk japonês para toda uma nova geração no Ocidente, que passou a consumir a música sem qualquer ligação com a banda original.

Já “Solanin” (2010), baseado no mangá de Inio Asano, mostra um caminho de integração transmídia. A canção tema foi escrita pelo próprio autor da HQ e gravada pela banda Asian Kung-Fu Generation. A versão oficial se integrou de tal forma à discografia do grupo que hoje é consumida nas plataformas de streaming por milhares de fãs de rock que sequer sabem da existência do filme ou do mangá.

Pra fechar!

Ainda existem exceções. Recentemente, a música Golden, da animação da Netflix “Guerreiras do K-Pop” (K-Pop Demon Hunters), explodiu no streaming e venceu o Oscar de Melhor Canção Original de 2026, repetindo a trajetória de Falling Slowly. Mas o sucesso de Golden é a exceção que prova a regra: para furar a bolha da pulverização atual, foi preciso o maquinário de marketing de uma gigante global de streaming e a força avassaladora do fenômeno K-pop.

A provocação para esta semana é: em um mundo onde temos acesso a todas as músicas já gravadas na história da humanidade, nós perdemos a capacidade de consagrar um hino comum? Hoje, antes de dormir, deixe Falling Slowly rodar no seu fone de ouvido e perceba como, na nuvem, a música sobrevive — mesmo que cada um de nós esteja ouvindo sozinho em sua própria bolha.

Tiago Souza

Jornalista e pesquisador com mais de 20 anos dedicados ao universo das HQs, livros, séries e filmes. Escreve a coluna PopTec. Porque o pop não vive sem tec. E tec é o que há de mais pop em um país em que existem mais smartphones do que pessoas.

4 de agosto de 2026

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