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Na Garagem

Seu próximo carro pode ser vendido por uma IA que fala como você

Do sotaque regional ao CRM preditivo e à transferência digital, a tecnologia começa a mudar uma negociação que por décadas dependeu da conversa cara a cara entre comprador e vendedor de carro

Por: Clarissa Palácio

Quanto menos etapas da compra de um carro dependerem de papel, deslocamento e processos separados, mais rápida pode ser a negociação

Créditos: Freepik

Quanto menos etapas da compra de um carro dependerem de papel, deslocamento e processos separados, mais rápida pode ser a negociação

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  • BYD, Geely e Changan firmaram cooperação para desenvolver tecnologias de veículos elétricos.
  • São Paulo implementa novas regras e limites para veículos elétricos e para a CNH Digital, visando maior regulamentação.
  • A FENAUTO registrou 1.754.785 transferências de seminovos e usados em julho 2026, alta de 10,7 % sobre junho.
  • Vaapty, liderada por Souza, usa IA no atendimento fora do expediente, atrai 50‑60 mil visitas mensais e converte 15‑20 % em vendas.

Comprar ou vender um carro costuma envolver uma combinação conhecida de pesquisa, conversa, negociação e burocracia. A diferença é que parte dessa jornada já não precisa necessariamente acontecer entre duas pessoas sentadas diante do mesmo balcão. Em 2026, inteligência artificial, sistemas de relacionamento com clientes e documentos digitais começam a ocupar espaços cada vez mais próximos da negociação de veículos.

Uma das mudanças mais curiosas aparece antes mesmo de o consumidor chegar a uma loja. A Vaapty, rede de franquias especializada na intermediação de veículos, utiliza inteligência artificial no atendimento inicial e adotou vozes adaptadas regionalmente, incluindo sotaques. A ideia é fazer com que uma interação automatizada soe menos como uma resposta genérica de sistema e mais como uma conversa familiar ao consumidor.

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O movimento acontece em um mercado de usados que segue aquecido. Segundo a Federação Nacional das Associações dos Revendedores de Veículos Automotores (FENAUTO), 1.754.785 veículos seminovos e usados trocaram de proprietário em julho de 2026, alta nominal de 10,7% sobre junho. No acumulado dos sete primeiros meses do ano, foram 10.832.969 unidades, volume 7,7% superior ao registrado no mesmo período de 2025.

O vendedor de carros ganhou sotaque

Na prática, o sotaque é apenas a parte mais visível de uma mudança que começa antes da negociação propriamente dita. Segundo Miguel Henrique Souza, CEO da Vaapty, o consumidor pode iniciar o contato fora do horário comercial, quando está em casa usando o celular, e receber atendimento da inteligência artificial. “A IA faz 100% do atendimento” nesse primeiro momento, afirma o executivo, que explica que o sistema pode inclusive realizar o agendamento de uma avaliação para o dia seguinte.

O objetivo, segundo Souza, não é fazer com que a IA substitua o vendedor em toda a operação. Quando aparece uma objeção que ainda não foi prevista pelo sistema, o atendimento passa para uma pessoa, que assume a conversa, resolve a questão e pode devolver o contato à inteligência artificial. “Acaba que trabalha em conjunto”, resume o CEO. A divisão coloca a tecnologia em uma posição diferente daquela de um vendedor virtual autônomo: ela funciona como uma camada de atendimento e preparação para a negociação humana.

A regionalização da voz surgiu justamente dessa tentativa de tornar a comunicação automatizada mais próxima do consumidor. Souza afirma que a novidade teve boa recepção entre clientes e franqueados, embora não seja uma característica igualmente valorizada em todas as unidades. Para ele, a diferença pode ser mais perceptível em regiões nas quais os sotaques são muito marcados, enquanto capitais e áreas metropolitanas podem apresentar maior facilidade de padronização.

A decisão de investir em IA também responde a uma questão bastante prática: o horário em que as pessoas tomam decisões não necessariamente coincide com o horário de funcionamento de uma loja. Segundo Souza, a empresa identificou dificuldade em manter atendimento fora do expediente sem sobrecarregar funcionários. “Por questão trabalhista, questão até de saúde do próprio funcionário, não dá para fazer isso no dia a dia”, afirma. A tecnologia entrou, portanto, não apenas como recurso de personalização, mas como uma forma de ampliar o período em que o consumidor consegue iniciar uma negociação.

Créditos: Divulgação

Legenda: Miguel Henrique Souza, CEO da Vaapty

A IA entrou na negociação de carros

A inteligência artificial, porém, não fica restrita à conversa inicial. Na operação descrita pelo CEO, ela atua principalmente na etapa de pré-vendas, responsável por trazer, nutrir, recepcionar e recuperar potenciais clientes. Depois que a pessoa é agendada e comparece à loja, a negociação passa novamente para os profissionais humanos. “A partir do momento que a gente agenda ele para a loja e ele comparece, acabou o trabalho da IA”, explica Souza.

Essa divisão ajuda a entender uma transformação mais ampla no trabalho de vendedores. Em vez de passar boa parte do tempo repetindo explicações sobre o funcionamento da empresa ou tentando recuperar contatos antigos, o profissional pode receber da tecnologia uma parcela desse trabalho já organizada. A Vaapty afirma receber entre 50 mil e 60 mil pessoas por mês em sua rede e ter uma conversão média de 15% a 20%, segundo os dados apresentados pelo CEO na entrevista. Nesse volume, a empresa considera que recuperar potenciais compradores manualmente se torna difícil de sustentar em escala.

É aí que entra o CRM, sistema utilizado para organizar informações e interações com clientes. Souza explica que a IA pode criar uma espécie de régua de nutrição para manter o contato com quem passou pela loja, mas não fechou negócio naquele momento. O sistema também pode identificar padrões de comportamento durante o atendimento, como a velocidade das respostas. Segundo o executivo, respostas mais rápidas podem indicar maior disposição para concluir uma venda e ajudam a equipe a decidir quais contatos devem receber atenção prioritária.

A lógica também revela um limite importante da automação. Apesar de a tecnologia conseguir vender os veículos para determinados públicos, a Vaapty ainda depende da presença física para comprar os automóveis. Souza explica que o negócio trabalha com a intermediação e precisa levar o proprietário à loja para realizar a negociação. “Online não funciona o nosso modelo de negócio”, afirma. A tecnologia, nesse caso, não elimina a loja física, mas tenta fazer com que chegue até ela um cliente mais preparado para negociar.

O ecossistema tecnológico da empresa também inclui um ERP desenvolvido para o modelo de franquias, além da integração entre CRM, inteligência artificial e ferramentas de análise. Em materiais divulgados em 2026, a companhia afirma que a estrutura foi criada para automatizar tarefas, monitorar unidades e utilizar análise preditiva em decisões comerciais e operacionais. A empresa atribui a esse conjunto de tecnologias um papel na produtividade e na escalabilidade da rede, mas não apresenta uma métrica isolando quanto do crescimento financeiro seria causado especificamente pela IA.

Uma concessionária sem estoque

A tecnologia ganha outra dimensão quando combinada ao modelo de negócio da empresa. A Vaapty não funciona como uma concessionária tradicional que compra veículos para deixá-los parados em um pátio esperando um comprador. Segundo Souza, a operação é baseada na intermediação: a empresa só compra um veículo quando já existe uma negociação encaminhada para sua venda. “Eu compro já vendendo”, explica o CEO. Por isso, a companhia afirma que não trabalha com estoque próprio de automóveis.

É esse desenho que ajuda a explicar o termo “asset light”, usado para descrever negócios que dependem menos de ativos físicos para funcionar. No caso da Vaapty, o capital não precisa ficar concentrado em uma grande quantidade de carros parados, enquanto tecnologia, marketing, processos e relacionamento com clientes ganham importância. Souza afirma que a ausência de estoque também reduz a exposição da empresa às oscilações do valor dos veículos usados. “Se a FIP mudar amanhã, a minha vida reinicia todo dia dentro da Vaapty”, diz.

O modelo também altera a função da unidade física. Em vez de ser necessariamente um ponto para onde o consumidor passa espontaneamente ao ver uma vitrine, a loja funciona como destino de uma jornada que começou em outro lugar, muitas vezes no celular. Segundo Souza, a empresa depende fortemente de marketing para gerar os contatos e utiliza a etapa de pré-vendas para nutrir o potencial cliente até que ele compareça. A tecnologia, portanto, não substitui a estrutura física, mas ajuda a decidir quem deve chegar até ela e em que momento.

O crescimento projetado para 2026 é apresentado pela empresa como um dos reflexos desse modelo. A Vaapty movimentou mais de R$ 1,5 bilhão em transações em 2025 e projeta ultrapassar R$ 2 bilhões em 2026, crescimento de aproximadamente 33%, segundo informações divulgadas pela companhia e repercutidas em 2026. O número de R$ 2 bilhões, portanto, é uma projeção para o fechamento do ano, e não um resultado já consolidado em agosto. A empresa encerrou 2025 com 172 unidades e estabeleceu uma meta de chegar a 300 operações em 2026.

O próprio Souza, porém, evita atribuir esse crescimento exclusivamente à inteligência artificial. Questionado sobre quanto da expansão poderia ser creditado ao modelo asset light e quanto viria da digitalização, ele afirma que não possui essa métrica isolada. Para o executivo, o efeito está no conjunto da estrutura, que combina menor necessidade de capital imobilizado, processos padronizados, marketing, tecnologia e gestão. A ressalva é relevante porque mostra que, na prática, a IA aparece menos como uma causa única do crescimento e mais como uma ferramenta dentro de uma operação construída para escalar.

Do aperto de mão à transferência pelo celular

A transformação da compra e venda de veículos também acontece fora das empresas. Em 19 de agosto de 2026, o Ministério dos Transportes anunciou a regulamentação da transferência eletrônica de propriedade de veículos por meio da Resolução Contran nº 1.027. A norma estabelece modalidades convencional, eletrônica e eletrônica custodiada e cria as bases para integrar diferentes etapas da operação ao Registro Nacional de Veículos Automotores, o Renavam.

Na modalidade eletrônica, a proposta é concentrar em um mesmo fluxo etapas que hoje podem estar distribuídas em sistemas diferentes. Segundo o Ministério dos Transportes, a funcionalidade em implementação pela Senatran deverá permitir, quando estiver disponível, registrar a negociação, assinar eletronicamente a transferência, consultar e pagar débitos e taxas e concluir a mudança de propriedade. A vistoria também deverá ser integrada ao processo por meio dos serviços disponíveis. A regulamentação ainda prevê autenticação individual e multifator, rastreabilidade, trilhas de auditoria e mecanismos de prevenção e detecção de fraudes.

A digitalização não começou agora. A Carteira Digital de Trânsito já permite a venda digital de veículos em estados que aderiram ao sistema, com assinatura eletrônica e biometria facial, embora o processo atualmente ainda possa exigir que o comprador compareça ao Detran para concluir etapas como a vistoria. Em São Paulo, por exemplo, o Detran mantém serviços digitais para transferência de propriedade e emissão da ATPV-e. O que muda com a regulamentação de 2026 é a perspectiva de reunir essas etapas em uma operação eletrônica mais integrada.

Para a Vaapty, quanto menos etapas dependerem de papel, deslocamento e processos separados, mais rápida pode ser a negociação. A empresa afirma ser responsável pela parte documental de suas operações e diz que avanços na transferência, consulta de débitos e pagamentos beneficiam diretamente seu modelo. “Quanto mais rápido a gente fazer todo o processo, melhor e mais benéfico vai ser aquela negociação para o cliente”, afirma Souza. A relação entre tecnologia pública e privada, nesse caso, aparece de maneira bastante concreta: uma operação comercial pode ganhar velocidade à medida que a infraestrutura regulatória também se torna digital.

Há ainda um detalhe que ajuda a dimensionar a importância dessa integração. Segundo o CEO, cerca de 90% dos veículos comprados pela Vaapty estão financiados, o que significa que a negociação envolve também a quitação do financiamento e o cálculo do valor que será repassado ao proprietário. Souza afirma que essas informações precisam ser obtidas rapidamente para que a empresa consiga definir quanto pode oferecer pelo automóvel. A tecnologia, nesse ponto, deixa de ser apenas uma ferramenta de atendimento e passa a participar da própria engenharia financeira da transação.

Ainda assim, a digitalização não resolve sozinha a questão mais delicada de uma venda de alto valor: confiança. Souza afirma que a empresa encontra resistência entre consumidores menos familiarizados com tecnologia e associa parte dessa resistência ao medo de fraudes. Por isso, embora a Vaapty venda veículos de maneira digital para comerciantes, ele diz que a companhia ainda não compra carros totalmente online de pessoas físicas. “A gente precisa quebrar essa barreira da fraude, quebrar essa barreira da desconfiança”, afirma.

Clarissa Palácio

Jornalista de lifestyle. Moda, beleza, gastronomia, esportes e tecnologia sob o olhar das tendências que movem a vida cotidiana.

27 de agosto de 2026

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