Famílias, educadores e a sociedade como um todo precisam reforçar a mensagem de que pensar continua valendo a pena
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Pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025 revela que 65% de crianças e adolescentes brasileiros (9-17 anos) usam IA para estudar, buscar informações e criar conteúdo.
Estudo aponta que 59% dos jovens usam IA para tarefas escolares, 42% para buscar informações e 21% para gerar textos ou imagens, com 70% dos adolescentes do ensino médio utilizando IA para tarefas.
A pesquisa destaca a falta de orientação escolar sobre o uso seguro e eficaz da IA, com apenas 32% dos estudantes recebendo tal instrução.
Artigo defende a necessidade de regular plataformas, formar professores e conscientizar famílias sobre o uso crítico da IA para não comprometer o desenvolvimento do raciocínio e habilidades de resolução de problemas.
Cerca de 65% das crianças e adolescentes brasileiros entre 9 e 17 anos já usam a inteligência artificial generativa em suas rotinas, sobretudo para estudar, buscar informações e criar conteúdo, segundo a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025. Esse número, por si só, revela menos uma tendência passageira e mais uma transformação estrutural na forma como novas gerações pensam, aprendem e constroem suas identidades.
Do ponto de vista social, o dado é sedutor: crianças e adolescentes conectados, autônomos, com acesso a ferramentas sofisticadas que antes eram exclusivas de especialistas. Mas, por trás dessa narrativa de modernidade, há um risco silencioso de maravilhamento tecnológico que precisa ser discutido com franqueza. A ideia de que “a IA responde a tudo” pode alimentar a sensação de que pensar profundamente deixou de ser necessário. A aprendizagem passa a ser a obtenção de respostas e não o entendimento de processos. Assim, o que existe é uma modelagem de crer e não de entender.
A pesquisa mostra que 59% dos jovens usam IA para tarefas escolares, 42% para buscar informações e 21% para gerar textos ou imagens. Em tese, isso poderia representar um salto de qualidade no acesso ao conhecimento, ampliando repertórios e encurtando distâncias educacionais. Na prática, porém, há uma diferença crucial entre usar a tecnologia para expandir o pensamento e usá-la para substituí-lo. Quando o estudante passa a recorrer à IA como atalho permanente, terceiriza o esforço de raciocinar, comparar fontes, formular dúvidas e construir uma resposta própria.
Entre adolescentes do ensino médio, o quadro é ainda mais intenso: sete em cada dez utilizam IA para realizar tarefas. É justamente nessa fase que se espera o desenvolvimento de competências de análise, argumentação e resolução de problemas complexos. Se a experiência escolar se reduz a copiar e colar respostas bem escritas por um sistema, o que se está treinando não é pensamento crítico, mas dependência cognitiva. A mensagem implícita é perversa: porque tentar, se uma máquina faz melhor e mais rápido?
Outro ponto delicado é a relação entre tecnologia e identidade. Em um universo em que 92% das crianças e adolescentes estão conectados, a IA não é só ferramenta — é símbolo. Usar IA passa a funcionar como um selo de modernidade, de “estar na frente”, de pertencer a um grupo que domina a linguagem tecnológica. Nesse contexto, o ato de usar se torna mais importante do que aquilo que se produz com a ferramenta. O jovem quer ser visto como alguém que domina a novidade; o conteúdo, ao menos inicialmente, vira detalhe. O maravilhamento com a tecnologia transforma o uso da ferramenta em objeto. Ele passa a ter valor de mercadoria, integra-se ao modo de vida como uma vestimenta, formulando a percepção dos outros sobre o sujeito. A IA se transforma em moda e veste o corpo.
Essa lógica desloca o eixo da educação: deixa-se de centralizar o processo de compreender, questionar e argumentar. O foco recai sobre a capacidade de performar competência tecnológica. A resposta “bonita”, “organizada” e “profissional” da IA reforça uma ilusão de domínio que não corresponde, necessariamente, à compreensão real. Quando a forma se sobrepõe ao conteúdo, abre-se espaço para um aprendizado superficial, sem raízes.
Há ainda um efeito direto sobre a linguagem. Modelos de IA podem enriquecer vocabulário e oferecer boas referências de estrutura textual, desde que usados como material de estudo, e não como substituto da própria escrita. Crianças em fase de formação podem começar a reproduzir frases prontas, jargões e construções que não fazem parte do seu repertório, sem entender inteiramente o que dizem. A consequência é uma verbalização polida, mas pouco autêntica — um discurso no qual o sujeito real some atrás de um estilo padronizado.
O aspecto mais preocupante, porém, é a lacuna de mediação. A TIC Kids aponta ainda que apenas cerca de 32% dos estudantes receberam orientação escolar sobre como usar IA de forma segura e eficaz. Isso significa que a maioria está navegando nesse novo território sozinha, guiada por tutoriais rápidos, amigos e tendências de rede social. Não é surpresa que, nesse cenário, prevaleça o uso deslumbrado e utilitarista: a IA como atalho para cumprir obrigações, não como parceira para pensar melhor.
O debate que o Brasil precisa encarar não é se crianças e adolescentes devem ou não usar IA — isso já está decidido pelos próprios dados. A questão central é como garantir que essa tecnologia não atropele o desenvolvimento de capacidades que são insubstituíveis: raciocínio crítico, capacidade de verbalizar a própria experiência, habilidade de resolver problemas complexos e de sustentar uma dúvida diante de respostas fáceis.
Não existe a possibilidade de “ser contra a inteligência artificial”. Ela está integrada ao cotidiano e vai aumentar sua penetração. Convivi com diretores de arte que não queriam os computadores nas agências de publicidade. A mesma coisa com jornalistas que não digitavam. Quem gostaria de ficar digitando em celulares podendo ligar? Não precisamos mostrar os números dos aplicativos de mensagens. A tecnologia tem um efeito de integração e uso cada vez mais fácil. A inteligência artificial é intuitiva. E tem um arcabouço emocional incorporado que é a “sensação de diálogo”. Seu uso não recuará.
Regular plataformas, criar diretrizes e formar professores para mediar o uso de IA são passos urgentes. Mas há uma dimensão mais profunda, que não pode ser delegada à escola ou ao Estado: famílias, educadores e a sociedade como um todo precisam reforçar a mensagem de que pensar continua valendo a pena, mesmo (e talvez principalmente) em um mundo em que a resposta parece estar sempre a um prompt de distância. Não assumirmos essa responsabilidade será condenar amplos setores da humanidade à completa ignorância, ao fanatismo das crenças absurdas e ao terraplanismo intelectual, onde a borda do desastre se alimenta de uma escuridão infinita.