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Espiritualidade em pixels: a era em que jornadas de autoconhecimento migram para o digital

Cursos criativos, comunidades online e práticas terapêuticas à distância transformam a relação com a tecnologia e reposicionam a internet como espaço de presença, ritual e reconexão subjetiva

Por: Clarissa Palácio

Créditos: Mariana Oliveira

A mesma internet desenhada para capturar atenção contínua agora tenta acomodar práticas que exigem pausa, silêncio e permanência

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  • Karla Gonçalves lançou a jornada digital “Aquarela Alquimista”, unindo aquarela e espiritualidade, ao migrar seus cursos presenciais de Pernambuco para o formato online em 2020.
  • O projeto responde à “fadiga digital”, que tem aumentado o esgotamento por estímulos tecnológicos e impulsionado a busca por práticas de mindfulness e reconexão emocional.
  • O relatório Digital Wellness Institute Trends 2026 aponta crescimento global na procura por experiências digitais de bem‑estar, criatividade guiada e meditação.
  • A iniciativa é divulgada no Instagram @aguasdakarla, atraindo participantes que relatam questões além do aprendizado técnico de aquarela.

Existe um movimento silencioso acontecendo dentro da própria lógica da internet: em meio a notificações incessantes, excesso de informação e uma rotina digital construída na velocidade da rolagem infinita, parte dos usuários começou a procurar justamente o contrário. Crescem as experiências online capazes de desacelerar o tempo, reorganizar o emocional e criar algum tipo de presença subjetiva no meio do ruído constante.

A mudança já aparece em diferentes áreas do mercado digital. Cursos criativos, plataformas de meditação, jornadas terapêuticas remotas e comunidades fechadas se multiplicaram nos últimos anos, embalados por uma espécie de fadiga coletiva da hiperconexão. Em vez de apenas consumir vídeos rápidos, repetir tendências ou alimentar ciclos automáticos de dopamina, usuários passaram a buscar ambientes digitais mais lentos, personalizados e afetivos.

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O fenômeno acompanha o avanço da chamada “fadiga digital”, conceito que ganhou força para descrever o esgotamento provocado pelo excesso de estímulos tecnológicos. Segundo o relatório The Future of Wellness: 2026 Trends, do Global Wellness Summit, houve crescimento global no desejo de fugir de métricas e, em paralelo, buscar por experiências de recuperação emocional e prazer. Nesse cenário, a internet começa a ocupar um lugar diferente no imaginário contemporâneo. Ela deixa de funcionar apenas como espaço de distração acelerada e passa também a mediar experiências subjetivas. Não se trata necessariamente de abandonar a tecnologia, mas de renegociar sua função dentro da vida cotidiana.

Foi justamente nesse deslocamento que nasceu a Aquarela Alquimista, jornada criada por Karla Gonçalves, artista, terapeuta, educadora criativa e responsável pelo perfil @aguasdakarla no Instagram. Antes da pandemia, Karla conduzia cursos presenciais em Pernambuco voltados à criatividade, espiritualidade e processos artísticos dentro do Espaço Águas, ambiente que reunia terapeutas e práticas integrativas.

Quando o isolamento social interrompeu os encontros físicos em 2020, surgiu a necessidade de transportar toda aquela experiência para o digital. “Veio essa ideia de criar algo através das pessoas que já me seguiam naquele momento. Uma sugestão foi tentar dar essas aulas no formato online. Eu não sabia como seria isso, mas já tinha formatado presencialmente um caminho que era juntar a aquarela com a espiritualidade”, relata.

O resultado foi uma experiência que mistura prática artística, acompanhamento emocional e trocas coletivas mediadas por telas. Aos poucos, o curso revelou que muitas das questões trazidas pelas participantes ultrapassavam o aprendizado técnico. “As pessoas chegavam falando sobre perfeccionismo, medo de ir em frente, dificuldade de se sentir criativa. Enquanto a gente criava e, às vezes, não gostava do resultado, eu mostrava caminhos de acolhimento dentro desse processo”, afirma a mentora. Mais tarde, a iniciativa daria origem ao Criativo Florescer, jornada online voltada à integração entre criatividade, espiritualidade e autoconhecimento.

Créditos: Divulgação

Legenda: Karla Gonçalves, artista, terapeuta, educadora criativa e responsável pelo perfil @aguasdakarla

Do excesso à intenção

Durante mais de uma década, a lógica dominante da internet esteve associada à velocidade, produtividade e consumo contínuo. Agora, especialistas observam uma mudança gradual em direção a experiências consideradas mais intencionais, especialmente entre usuários emocionalmente saturados pelo excesso de estímulos digitais.

Segundo Business Research Insights, há um crescimento constante e consistente em serviços ligados a bem-estar emocional, saúde mental e desaceleração mediados por tecnologia, com a estimativa de que esse mercado alcance o valor de US$ 35,6 bilhões (R$ 179,8 bilhões) até 2035. A transformação também alterou o modo como plataformas e produtores independentes passaram a estruturar suas comunidades. Em vez de conteúdos descartáveis e consumo rápido, cresce o interesse por experiências continuadas, encontros online e espaços que ofereçam sensação de pertencimento.

Cursos criativos, grupos terapêuticos digitais e comunidades fechadas passaram a funcionar quase como um contraponto à fragmentação das redes sociais tradicionais. O objetivo já não parece ser apenas capturar atenção, mas sustentar permanência. A própria Karla percebe essa ambivalência na relação contemporânea com a internet. “A gente acabou se perdendo no que o próprio algoritmo entrega para a gente. Existe uma dopamina barata que teoricamente alimenta e traz bem-estar. Mas, ao mesmo tempo, existem redes de conexões que podem se estabelecer”, afirma. Para ela, o ambiente digital concentra simultaneamente excesso e possibilidade de reencontro, dependendo da forma como é utilizado. “Algumas pessoas são buscadoras em essência, e eu acredito que a arte é muito para essas pessoas que são sensíveis e buscadoras”, diz.

A arte como antídoto da velocidade

Entre as práticas que ganharam força nesse contexto estão atividades artísticas ligadas à desaceleração, especialmente processos manuais como desenho, bordado, cerâmica e aquarela. Mais do que hobbies, essas experiências passaram a ocupar um território próximo ao cuidado emocional e à construção de presença. Existe algo simbólico no retorno dessas práticas justamente em uma era hiperautomatizada. A aquarela, por exemplo, exige tempo, repetição, atenção e margem para o erro; quase tudo o que a dinâmica das plataformas digitais tenta eliminar.

Créditos: Acervo pessoal

Legenda: Registros da Karla ministrando seus cursos

Karla descreve a própria relação com a arte como um espaço de sustentação emocional. “Eu entendi que a arte começou a me sustentar energeticamente, fisicamente e emocionalmente em todas essas crises”, afirma, ao lembrar do período em que recebeu o diagnóstico de endometriose e enfrentou dores intensas e tratamentos médicos. Segundo ela, a aquarela passou a funcionar como ferramenta de reorganização subjetiva em diferentes momentos da vida. “A aquarela sempre foi uma ferramenta muito direta para que eu me entendesse e pudesse fluir diante de tudo o que eu estava vivendo”, diz.

O vínculo entre criatividade, espiritualidade e introspecção atravessa também sua trajetória acadêmica. Durante a graduação em comunicação social com ênfase em fotografia, a mentora desenvolveu pesquisas ligadas ao universo onírico, à psicologia analítica e aos processos internos que mais tarde migrariam para os cursos online. No ambiente remoto, essas experiências ganharam escala. Pessoas que antes dependeriam de encontros presenciais passaram a acessar jornadas criativas sem sair de casa; muitas vezes adaptando os rituais à própria rotina. “O digital se torna um ponto em que elas vão para se alimentar e voltam para si mesmas, nas suas casas, para poder aprender e ritualizar esses processos”, afirma Karla.

Espiritualidade em modo online

A expansão dessas experiências subjetivas também transformou a forma como espiritualidade e autoconhecimento circulam socialmente. Se antes muitas dessas práticas estavam restritas a espaços físicos específicos, hoje elas aparecem distribuídas entre plataformas de vídeo, grupos fechados, encontros remotos e cursos híbridos. O movimento acompanha a própria transformação do mercado de bem-estar, que incorporou linguagens digitais sem abandonar a promessa de profundidade emocional.

Segundo o relatório Wellness Economy Monitor 2026, do Global Wellness Institute, setores ligados a mindfulness, espiritualidade contemporânea e desenvolvimento pessoal estão entre os segmentos digitais que mais cresceram nos últimos anos. O estudo destaca especialmente a procura por experiências consideradas “transformacionais”, capazes de unir criatividade, comunidade e práticas subjetivas guiadas.

Créditos: Acervo pessoal

Legenda: Registros da Karla ministrando seus cursos

Nesse contexto, projetos como o Criativo Florescer aparecem como parte de uma tendência maior de digitalização do bem-estar emocional. A proposta mistura práticas criativas, reflexões sobre chakras, processos terapêuticos e referências ligadas à criatividade e à psicologia analítica. “A gente hoje faz um trabalho de alçar voo dentro da arte, de trabalhar com a arte, criar projetos e manifestar esse mapa dos sonhos”, explica Karla. Ela cita influências como a pesquisadora Cecília Almeida Salles e o psiquiatra Carl Jung para estruturar os percursos criativos das jornadas.

Ao mesmo tempo, especialistas alertam para os limites dessa migração subjetiva para o ambiente digital. Se por um lado a tecnologia amplia alcance, democratiza acesso e flexibiliza horários, por outro também levanta discussões sobre superficialização e consumo rápido de processos emocionais complexos. A própria Karla reconhece essa tensão. “O digital sempre vai ter suas limitações, mas também vai ser um ponto em que a pessoa pode ir e voltar no seu tempo”, afirma.

Comunidade como resposta ao isolamento

Embora grande parte das críticas às redes sociais esteja associada ao isolamento e à individualização, o crescimento dessas comunidades digitais aponta para uma dinâmica diferente. Em muitos desses espaços, a experiência coletiva se tornou parte central da permanência dos participantes. Grupos de troca, encontros virtuais e fóruns fechados passaram a funcionar como redes de apoio emocional e criativo.

“Hoje a gente tem uma comunidade em que as mulheres saem se inspirando, trazendo força umas para as outras”, diz Karla. Segundo ela, parte das participantes chegam aos cursos tentando recuperar vínculos interrompidos com a própria criatividade. “Muitas chegam para honrar histórias antigas, honrar essa força que vive nelas, mas que ainda não teve espaço para ser colocada para fora”, afirma.

Os perfis variam: mães, aposentadas, iniciantes na arte e pessoas que jamais haviam considerado desenvolver processos criativos. “A idade é diversa, os perfis são diversos. Algumas nem acreditavam que poderiam criar algo”, relata a mentora. Talvez seja justamente aí que esteja uma das mudanças mais curiosas dessa nova internet: ela começa a funcionar menos como vitrine e mais como infraestrutura de pertencimento.

Créditos: Acervo pessoal

Legenda: Registros da Karla ministrando seus cursos

O paradoxo do bem-estar digital

O crescimento desse mercado, no entanto, também expõe contradições importantes. A mesma internet desenhada para capturar atenção contínua agora tenta acomodar práticas que exigem pausa, silêncio e permanência. Existe um paradoxo estrutural nessa dinâmica: a tecnologia que ajudou a acelerar ansiedade, dispersão e excesso de estímulos passou a hospedar experiências de introspecção, presença e desaceleração.

A questão, talvez, não esteja na tecnologia em si, mas na forma como ela é desenhada e socialmente utilizada. Karla resume essa ambivalência de maneira direta. “Tem lado luz e sombra. Tem o bom e tem o difícil dessa relação com as redes sociais”, afirma. Segundo ela, a busca crescente por experiências mais profundas nasce justamente de uma sensação coletiva de esvaziamento produzida pela velocidade do consumo digital. “É como se fosse uma tendência da alma entender que precisa voltar para si”, diz.

Durante muito tempo, o imaginário sobre a internet esteve ligado quase exclusivamente ao excesso, distração e hiperestimulação. Agora, começam a surgir experiências que tentam disputar outro espaço simbólico dentro do ambiente digital: um espaço em que as telas deixam de ser apenas fuga e passam a funcionar, paradoxalmente, como caminho de retorno.

Clarissa Palácio

Jornalista de lifestyle. Moda, beleza, gastronomia, esportes e tecnologia sob o olhar das tendências que movem a vida cotidiana.

22 de maio de 2026

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