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Entre a vitrine e o museu, a moda busca seu lugar nas artes
A fronteira entre moda, arte e produto fica cada vez mais difícil de definir à medida que novas tecnologias ampliam o campo da criação
Créditos: Freepik
Meu medo é que passemos a perguntar para uma ferramenta como deveríamos escrever uma redação antes de descobrir, sozinhos, como queríamos dizer alguma coisa
Quando eu estava na escola, minha matéria favorita (sem nenhuma surpresa) era língua portuguesa e redação. Não tinha dia tão feliz quanto os que minhas professoras passavam exercícios de escrita. Evidentemente a forma como eu escrevia se transformou muito ao longo da dezena de anos que separa meu ensino fundamental do dia de hoje, mas tem uma característica que teve que ser alterada na marra: o uso de travessão. Sempre foi minha marca registrada – inclusive para os docentes do meu colégio, que sabiam exatamente quando eu tinha cedido para os pedidos dos meus colegas de escrever, além da minha, a redação deles.
Nunca foi um problema; para mim sempre foi prazeroso usar meu tempo no estudo de linguística e escrever era mais diversão que tarefa. Os travessões eram a forma que eu melhor encontrava de comunicar minhas ideias – mais dramático que uma vírgula, menos urgente que dois pontos, perfeito para mim que nunca fui a maior fã de ponto e vírgula. Até que, já adulta, mostrei para minha mãe um texto publicado em um portal de notícias anterior onde já trabalhei e a primeira reação dela foi me perguntar: “você escreveu esse texto com IA?”. Não, claro que não. “Achei que tivesse, por causa do uso de travessões”.
Pode parecer uma questão boba, afinal, eu adaptei com facilidade a substituição dos meus travessões com outros pontos que também fariam sentido naquela determinada colocação. Mas uma ideia se fixou na minha cabeça até começar a me incomodar: a IA foi se infiltrando e se embrenhando em nossas vidas até passar do ponto em que somos dependentes dela – agora, ela esbarra no quanto podemos continuar com antigos hábitos sem que ninguém desconfie de que você tem usado o ChatGPT para viver sua vida.
Uma pesquisa publicada em agosto de 2026 na Nature Human Behaviour ajuda a explicar por que essa sensação não é completamente imaginária. O estudo analisou cerca de 880 mil textos e encontrou evidências de que a escrita se tornou menos variada à medida que ferramentas de inteligência artificial passaram a fazer parte da produção textual. Segundo os pesquisadores, os modelos conseguem preservar o significado pretendido pelo autor enquanto comprimem parte da diversidade linguística usada para expressá-lo. A pesquisa também encontrou mudanças nas características de identidade que podem ser inferidas a partir da linguagem. Ou seja, a tecnologia não precisa necessariamente escrever uma frase inteira por nós para alterar a maneira como nos comunicamos.
É pensando nisso que dê para pensar que, talvez, o verdadeiro incômodo não seja reconhecer um texto escrito por inteligência artificial. É o contrário: começar a reconhecer como “texto de IA” uma forma de escrever que, até pouco tempo atrás, era simplesmente uma forma de escrever. Uma escolha de pontuação, uma construção de frase, uma determinada maneira de organizar uma ideia ou até uma palavra que usamos com frequência podem passar a ser associadas aos modelos generativos. E, quando isso acontece, começamos a editar não apenas aquilo que queremos dizer, mas também a impressão que queremos causar sobre quem lê o texto pronto. O leitor deixa de ser a única pessoa diante do texto, porque existe uma espécie de terceiro elemento invisível perguntando se aquilo parece suficientemente humano.
O mais curioso é que a própria pesquisa científica sobre o assunto ainda está tentando descobrir até onde essa mudança chega. Um estudo publicado em 2026 no “Digital Scholarship in the Humanities” (Conhecimento Digital em Humanidades), da Oxford University Press, avaliou a capacidade do ChatGPT de reproduzir estilos individuais a partir de textos de 300 autores. Os pesquisadores encontraram dificuldades importantes para que o modelo imitasse perfeitamente as características particulares de cada escritor. Isso significa que a IA consegue produzir textos convincentes e adaptar registros, mas ainda não reproduz de maneira indistinguível todas as pequenas marcas que fazem uma pessoa soar como ela mesma.
Só que existe uma ironia aí. Enquanto nós discutimos se uma máquina consegue escrever como uma pessoa, já começamos a discutir se pessoas estão escrevendo como máquinas. E essa inversão é muito mais interessante do que parece, porque mexe justamente com uma das coisas que costumávamos considerar mais individuais na comunicação: a nossa voz. Não estou dizendo que um travessão, uma vírgula ou uma frase bem organizada sejam provas de autoria artificial, porque não são. Estou dizendo que a simples existência dessa associação já é suficiente para mudar a maneira como algumas pessoas pensam sobre aquilo que escrevem.
Talvez essa mudança tenha sido tão rápida porque a inteligência artificial deixou de ser uma novidade tecnológica e virou uma espécie de infraestrutura invisível da vida cotidiana. Segundo o Adoption Monitor, do Stanford Digital Economy Lab, 58% dos adultos nos Estados Unidos declaravam usar inteligência artificial generativa na vida pessoal ou profissional no início de 2026. Entre aqueles que utilizavam essas ferramentas, quase 90% afirmavam fazê-lo semanalmente, enquanto cerca de um quarto relatava uso diário. O próprio Stanford ressalta que esses números são baseados em uso declarado e podem não capturar ferramentas de IA incorporadas silenciosamente a serviços, como corretores automáticos, mecanismos de preenchimento e outras funções. Mesmo assim, é difícil olhar para os dados e continuar tratando a IA como algo que só aparece quando alguém decide abrir o ChatGPT.
A pesquisa “Americans and AI 2026” (Americanos e a IA 2026), realizada pelo Pew Research Center com 5.119 adultos nos Estados Unidos, mostra algo parecido. Segundo o levantamento, 49% dos adultos americanos disseram já ter usado chatbots como ChatGPT, Gemini ou Copilot, contra 33% em 2024. Entre os usos mais citados estavam buscar informações, realizar tarefas profissionais, divertir-se e criar ou editar imagens e vídeos. Mas os chatbots também já aparecem em áreas que são um pouco mais difíceis de classificar como simples produtividade: 20% dos adultos disseram usá-los para obter informações médicas e 10% para apoio ou aconselhamento emocional. Quando uma mesma tecnologia passa da pesquisa para o trabalho, do trabalho para a saúde e da saúde para a vida emocional, talvez “ferramenta” seja uma descrição cada vez mais limitada do papel que ela ocupa.
E existe um dado do mesmo levantamento que, particularmente, chama atenção. Entre adultos de 18 a 29 anos, 20% disseram já ter recorrido a chatbots para obter apoio emocional ou aconselhamento, enquanto 7% afirmaram utilizá-los para companhia. Não significa que um em cada cinco jovens tenha substituído amigos, familiares ou profissionais por uma inteligência artificial, porque a pesquisa não permite concluir isso. Significa apenas que uma parcela relevante já considera aceitável levar para uma conversa com uma máquina assuntos que antes dependiam necessariamente de uma relação humana. E talvez seja justamente essa normalização que torne a integração da IA tão diferente de outras tecnologias que usamos diariamente. A máquina não está apenas fazendo uma tarefa por nós – em determinadas situações, ela está ocupando o espaço em que antes acontecia uma interação.
Em junho de 2026, o Stanford Digital Economy Lab publicou outro estudo tentando medir justamente o valor que as pessoas atribuem a essa presença. A pesquisa “What is Generative AI Worth?” (Qual é o valor da IA generativa?) calculou quanto os participantes aceitariam receber para ficar um mês sem acesso a ferramentas como ChatGPT, Gemini, Claude ou Copilot. A média passou de US$ 98 em 2025 para US$ 124,50 em 2026, enquanto o número estimado de usuários adultos nos Estados Unidos cresceu de 98 milhões para 115 milhões. Os pesquisadores estimaram, a partir desses resultados, um aumento do excedente do consumidor associado às ferramentas de IA generativa. Traduzindo do economês: para muita gente, abrir mão da IA já tem um custo percebido, e esse custo parece estar crescendo.

Créditos: Arquivo pessoal
Legenda: A redação dessa imagem foi escrito por mim em setembro de 2023, quando a IA ainda estava se tornando o que nós conhecemos hoje. Ele foi escrito sem o uso de tecnologia, para um exercício de sala de aula da disciplina de Língua Portuguesa do curso de jornalismo. Ele é o exemplo mais antigo que encontrei nas minhas bagunças - e é possível reparar na presença de travessões
É aqui que a discussão fica um pouco mais desconfortável. Em 2025, pesquisadores do MIT Media Lab publicaram o estudo “Your Brain on ChatGPT” (Seu Cérebro no ChatGPT), que acompanhou 54 participantes divididos entre grupos que escreviam usando um modelo de linguagem, um mecanismo de busca ou nenhuma ferramenta. Nas três primeiras sessões, cada grupo permaneceu na condição determinada, e uma quarta sessão também analisou mudanças entre os participantes. Os pesquisadores relataram diferenças na conectividade cerebral e em alguns indicadores comportamentais entre os grupos, além de menor sensação de autoria entre participantes que usaram LLM. Mas o próprio desenho do estudo impõe limites importantes: a amostra foi pequena, a tarefa era específica e os resultados não permitem afirmar que usar ChatGPT, em qualquer circunstância, provoque uma redução generalizada da capacidade cognitiva.
Mesmo com essa ressalva, existe uma pergunta interessante escondida no experimento: o que acontece quando uma atividade que costumava exigir esforço passa a exigir apenas supervisão? Escrever um texto, por exemplo, não é apenas colocar palavras em uma página. É organizar ideias, decidir o que merece entrar, perceber que uma frase está ruim, procurar outra palavra, apagar um parágrafo inteiro e descobrir, depois de três tentativas, que a primeira opção era a melhor. Quando entregamos parte desse processo para uma ferramenta, economizamos tempo, mas também retiramos de nós uma parcela daquele exercício. Talvez o impacto mais importante da IA não esteja no que ela faz de errado, mas no que ela faz tão bem que nós paramos de praticar.
Isso também ajuda a explicar por que a discussão sobre inteligência artificial não deveria ser resumida a “usar ou não usar”. Aquela mesma pesquisa do Pew Research Center consegue afirmar, em 2026, que os americanos são mais propensos a dizer que os chatbots ajudam do que prejudicam sua produtividade, sua capacidade de se manter informados e sua criatividade. Cerca de três em cada dez adultos disseram que os chatbots ajudam sua produtividade, enquanto aproximadamente um em cada cinco afirmou que eles ajudam sua criatividade. Ao mesmo tempo, 11% disseram que a tecnologia prejudica sua criatividade. Ou seja, as pessoas não estão percebendo a IA apenas como ameaça ou apenas como solução: ela já ocupa um espaço ambíguo, no qual pode facilitar uma atividade e, ao mesmo tempo, alterar a forma como essa atividade é realizada.
Talvez seja por isso que a minha história com o travessão tenha me incomodado tanto. Eu não precisei pedir para uma inteligência artificial escrever aquele texto, nem usei uma ferramenta para escolher as minhas palavras. Ainda assim, uma tecnologia que eu havia usado em outros momentos da minha vida conseguiu interferir na forma como outra pessoa interpretou uma característica que era minha antes mesmo de a IA existir. Isso parece pequeno, mas é exatamente assim que mudanças culturais costumam acontecer: não necessariamente por grandes acontecimentos, e sim pela soma de pequenas alterações que, depois de algum tempo, passam a parecer normais. Primeiro você muda um sinal de pontuação. Depois começa a revisar uma frase porque ela “parece IA”. Em algum momento, talvez esteja se perguntando se a sua maneira natural de escrever é natural o suficiente.
Não acho que a solução seja abandonar a inteligência artificial, até porque seria uma conclusão pouco compatível com a realidade do mundo em que vivemos. Ela já está incorporada a ferramentas de trabalho, mecanismos de busca, aplicativos, celulares, plataformas de criação e serviços que usamos sem necessariamente perceber que existe um modelo de IA por trás deles. O próprio Stanford mostra que a adoção segue crescendo, enquanto o Pew registra que quase metade dos adultos americanos já utiliza chatbots. A discussão mais interessante, portanto, não é se vamos conviver com a tecnologia, mas como essa convivência vai funcionar. E, principalmente, quais partes da nossa rotina ainda queremos preservar como exclusivamente nossas.
Porque existe uma diferença considerável entre pedir para uma IA explicar um assunto que não entendemos e pedir para ela decidir como devemos explicar aquilo que pensamos. Existe diferença entre usar uma ferramenta para encontrar um erro de português e deixar que ela determine o tom da mensagem que vamos enviar para alguém. Existe diferença entre pedir ideias para um jantar e perguntar o que devemos fazer com a nossa vida amorosa. Nenhuma dessas escolhas é automaticamente certa ou errada, e os dados disponíveis não permitem estabelecer uma fronteira universal. Mas quanto mais áreas da vida entram nessa equação, mais importante parece ser perceber quando estamos usando uma ferramenta e quando estamos terceirizando uma decisão.
A pesquisa do Pew sobre 2026 mostra justamente que essa fronteira já está ficando bastante ampla. Além de trabalho e busca por informações, adultos usam chatbots para entretenimento, saúde, notícias, alimentação, exercícios, apoio emocional e companhia. Entre os jovens de 18 a 29 anos, 54% disseram usar chatbots para buscar informações e 41% dos que trabalham afirmaram utilizá-los em tarefas profissionais. Ao mesmo tempo, 20% disseram recorrer a eles para apoio emocional. Não é preciso interpretar esses números como uma catástrofe para reconhecer que estamos diante de uma mudança importante na relação entre pessoas e tecnologia. A IA já está entrando em lugares da vida que, até pouco tempo atrás, não pareciam pertencer ao universo da automação.
E talvez seja esse o ponto que eu realmente queria fazer quando comecei a escrever sobre meus travessões. Não estou especialmente preocupada com a possibilidade de alguém olhar para uma frase minha e achar que foi o ChatGPT quem escreveu. O que me preocupa é a possibilidade de chegarmos a um ponto em que comecemos a editar nossas próprias características para nos diferenciarmos da máquina. Que deixemos de usar determinada palavra porque “parece IA”. Que passemos a perguntar para uma ferramenta como deveríamos escrever – mais que isso, viver – antes de descobrir, sozinhos, como queríamos dizer alguma coisa – até um ponto em que não precisemos dos outros e de auto conhecimento para saber quem somos, o que queremos, quais nossos gostos, vontades e valores, porque a máquina consegue decidir isso por nós. É uma possibiliade tão distante assim?
Sim, o uso de todos os travessões desse texto foi proposital.
Jornalista de lifestyle. Moda, beleza, gastronomia, esportes e tecnologia sob o olhar das tendências que movem a vida cotidiana.
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