E a IA?
A filósofa e os algoritmos
Entre a promessa de alinhamento ético e o risco de captura ideológica, o treinamento moral das inteligências artificiais revela que, por trás dos algoritmos, seguem em disputa poder, valores e interesses
Créditos: Reprodução/Instagram
Romper a “sombra da própria loucura” — como diz a música — em 2026 significa desconectar do ruído para reconectar com a essência
Recentemente, em uma dessas sequências aleatórias que o algoritmo do Spotify decide para nós, começou a tocar Pontes Indestrutíveis, do Charlie Brown Jr. Em um mundo que muda em velocidade frenética, mediado por códigos e métricas, a letra me fez parar. Ela foca no que é permanente: a verdade individual e a capacidade de regeneração.
Entretanto, dois versos rápidos me deixaram em dúvida: “Quem é de verdade / Sabe quem é de mentira”. Em tempos de deepfakes, filtros de perfeição e redes sociais milimetricamente calculadas, será que essa máxima ainda se sustenta?
A dúvida sobre o que é real não é apenas um dilema poético. É o centro das maiores distopias da cultura pop. Em Eu, Robô (2004), o conflito nasce da substituição do julgamento humano pela lógica fria das máquinas. Já em Matrix (1999) e na série Ruptura (2022-), o questionamento vai além: se a tecnologia pode simular a nossa realidade ou até fragmentar a nossa consciência para fins produtivos, como saber onde termina o “eu” e onde começa o sistema?
Estamos vivendo a transição do “sentir” para o “processar”. Quando deixamos que a tecnologia substitua nossos espaços profissionais e pessoais, corremos o risco de perder as tais “pontes indestrutíveis” que o Chorão citava. Se a IA pode escrever um texto, criar uma imagem e até simular uma voz, a fronteira entre o “de verdade” e o “de mentira” torna-se uma névoa técnica.
Não chegamos aqui por acaso. Obras como A Rede Social (2010), Snowden (2016) e o documentário O Dilema das Redes (2020) nos mostraram as entranhas de uma indústria criada para nos manipular. A tecnologia não é neutra, ela foi desenhada para minerar nossa atenção e moldar nosso comportamento. O algoritmo não quer que você saiba “quem é de verdade”. Ele quer que você consuma o que ele previu que você gostaria.
Nesse cenário, a reputação deixa de ser uma construção orgânica e passa a ser um ativo vigiado por sistemas de monitoramento. Se você não tiver clareza dos seus valores, o sistema define quem você é para o mundo.
Talvez a resposta para o dilema tecnológico não esteja em mais tecnologia, mas em um retorno ao básico. Romper a “sombra da própria loucura” — como diz a música — em 2026 significa desconectar do ruído para reconectar com a essência. Em um mercado saturado de simulacros, a única vantagem competitiva indestrutível é a humanidade que não pode ser programada.
A provocação para esta semana é: você tem cuidado de quem corre ao seu lado ou está apenas alimentando o feed de quem mal te conhece? Resgate suas forças, pois no fim do dia, a coisa mais pura ainda é a verdade que nenhum prompt de IA consegue replicar.
Jornalista e pesquisador com mais de 20 anos dedicados ao universo das HQs, livros, séries e filmes. Escreve a coluna PopTec. Porque o pop não vive sem tec. E tec é o que há de mais pop em um país em que existem mais smartphones do que pessoas.
21 de maio de 2026E a IA?
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