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Entre a vitrine e o museu, a moda busca seu lugar nas artes
A fronteira entre moda, arte e produto fica cada vez mais difícil de definir à medida que novas tecnologias ampliam o campo da criação
Créditos: Freepik
Os livros me apresentaram a assuntos que eu não conhecia, despertaram perguntas e me deram referências que continuam aparecendo muito depois de terminar uma leitura
Eu estou sempre lendo algum livro. Invariavelmente. Eu tenho pilhas e pilhas de livros que ainda não li, um Kindle abarrotado de títulos que estão na fila de próximas obras a serem degustadas. Vem da infância: acabar um livro significava que, quando chegasse o final de semana, eu iria com o meu pai até uma livraria para escolher minha nova leitura. Foi com muita dor que eu vi o encerramento de diversas lojas de literatura há alguns anos e cheguei a quase ter certeza que os livros de papel tinham seus dias contados. Imaginem, então, minha surpresa quando entrei no metrô alguns dias atrás e, ao olhar ao redor, contando comigo, tinham 5 pessoas lendo – 4 em exemplares físicos.
“Agora ler voltou a ser uma coisa chique. Está na moda ler. Todo mundo quer mostrar que está lendo, que ler é bacana, que ler é chique”, afirmou Rute Pedri, diretora de Varejo do Grupo Livrarias Curitiba, à EXAME. Uma afirmação que é quase paradoxal, visto que a crescente vertiginosa da tecnologia está roubando a atenção das pessoas da vida real para as redes sociais. Apesar disso, a volta da moda da literatura já apresenta frutos: franquias de livrarias voltaram a abrir por toda parte.
Eu, particularmente, acho ótimo. Crescer sendo incentivada pela minha família a ser uma leitora ativa foi um dos melhores auxílios para ser a adulta mais interessada, curiosa, atenta e comunicativa que sou. E acho que eu até entendo o que vem por trás do fato de que a tecnologia não foi o suficiente para afastar as pessoas de boas histórias escritas. Os livros me deram o que inteligência artificial nenhuma nunca vai conseguir dar: repertório.
Os dados mais recentes ajudam a entender por que esse assunto voltou a chamar a atenção. Segundo o Panorama do Consumo de Livros, pesquisa realizada pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) em parceria com a Nielsen BookData e divulgada em março de 2026, 18% dos brasileiros com 18 anos ou mais compraram ao menos um livro impresso ou digital nos 12 meses anteriores ao levantamento. Em 2024, esse percentual era de 16%, o que representa cerca de três milhões de novos consumidores em um ano. O resultado mostra que, apesar da concorrência com outras formas de entretenimento, os livros continuam despertando interesse.
A recuperação também aparece nos números da indústria editorial. De acordo com a pesquisa Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro, ano-base 2025, coordenada pela CBL e pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL), com apuração da Nielsen BookData, as vendas das editoras ao mercado cresceram 7,7% em valores nominais em relação a 2024. O volume de exemplares comercializados avançou 6,5%, enquanto o crescimento real, descontada a inflação, foi de 3,3%. Entre os gêneros, a ficção adulta registrou alta de 12% no faturamento, empatando com os livros didáticos entre os maiores avanços. Os resultados indicam que a movimentação não está restrita às conversas nas redes sociais: ela também aparece no desempenho econômico do setor.
A recuperação também pode ser observada na volta de grandes livrarias a endereços importantes de São Paulo. Em outubro de 2024, a Livraria Cultura reabriu em um casarão histórico na Avenida Angélica, em Higienópolis, depois de fechar sua tradicional unidade no Conjunto Nacional, na Avenida Paulista. No ano seguinte, em dezembro de 2025, foi a vez da Livraria da Vila inaugurar uma megaloja de 800 m² na Paulista, com um acervo de mais de 100 mil itens. As duas aberturas mostram que ainda existe espaço para lojas físicas dedicadas aos livros, mesmo depois de anos de dificuldades para o setor. Mais do que pontos de venda, esses endereços podem funcionar como lugares de descoberta, onde leitores encontram títulos, exploram gêneros diferentes e recebem indicações que talvez não procurassem espontaneamente.
É claro que a abertura de novas unidades não significa, por si só, que o Brasil voltou a ser um país de leitores assíduos. Mas há algo significativo em ver grandes redes voltarem a investir em espaços físicos em uma época na qual tantas compras e experiências migraram para o ambiente digital. Uma livraria permite passear pelas estantes sem necessariamente saber o que se procura, descobrir um autor por acaso ou sair com um livro que não estava na lista inicial. Essa experiência é diferente de pesquisar um título específico na internet e pode ajudar a despertar a curiosidade de quem ainda não tem o hábito de ler. Em um mercado cada vez mais digital, a permanência desses espaços mostra que a experiência de escolher um livro pessoalmente ainda tem seu lugar.
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Uma das coisas mais interessantes desse movimento é que parte dele começa justamente nas telas. O BookTok, comunidade literária do TikTok, transformou indicações de livros em conteúdo de entretenimento, com vídeos sobre personagens, reações a finais e recomendações de novas histórias. Segundo o estudo “BookTok Brasil e as novas experiências literárias“, publicado pelo centro de pesquisas Reglab em março de 2026, as interações na plataforma ajudam a conectar a descoberta digital de obras à experiência de compra em livrarias físicas. O levantamento combinou uma revisão de estudos acadêmicos com observações realizadas em dez livrarias de São Paulo. A pesquisa identificou que as recomendações feitas por criadores de conteúdo e a identificação com as experiências compartilhadas ajudam a aproximar novos públicos da leitura. Ou seja, nem sempre é preciso entrar em uma livraria sabendo o que se quer ler: às vezes, a vontade começa em um vídeo que aparece na tela do celular.
É curioso pensar que uma plataforma associada a vídeos curtos e ao consumo rápido de conteúdo também possa despertar o interesse por livros, que exigem mais tempo e atenção. No BookTok, a leitura deixa de ser apenas uma atividade individual e passa a fazer parte de uma conversa coletiva. Os leitores compartilham opiniões, discutem personagens, indicam títulos e descobrem autores que talvez não encontrassem por conta própria. Segundo o estudo do Reglab, esse movimento também ajuda a renovar o interesse por obras que já estavam no mercado, além de dar visibilidade a diferentes gêneros e vozes literárias. A experiência digital pode, assim, ultrapassar a tela e chegar às estantes, aos encontros entre amigos e às conversas do dia a dia. A tecnologia, nesse caso, não precisa ser a inimiga da leitura: pode ser justamente a ponte que leva até ela.
Mas por que ler continua sendo tão importante em um mundo no qual quase qualquer informação pode ser encontrada em poucos segundos? Uma coisa é ter acesso a uma resposta, outra é construir referências para entender o que ela significa. Um romance pode apresentar uma realidade distante da nossa, enquanto um ensaio pode ajudar a compreender um assunto que antes parecia complicado. Uma referência histórica encontrada em um livro pode reaparecer em uma notícia, em um filme ou em uma conversa inesperada. Aos poucos, essas informações se conectam e passam a fazer parte da maneira como interpretamos o mundo. É isso que torna o repertório tão valioso: ele não se resume ao que sabemos, mas também envolve as relações que conseguimos estabelecer entre diferentes conhecimentos.
A leitura também nos coloca em contato com experiências que não viveríamos necessariamente na vida real. Ao acompanhar uma personagem, por exemplo, podemos conhecer conflitos, escolhas e perspectivas muito diferentes das nossas. Isso não significa que todo leitor se torne automaticamente mais empático, inteligente ou bem informado, já que os efeitos dependem da obra e da maneira como cada pessoa se relaciona com ela. Ainda assim, os livros oferecem oportunidades de ampliar as referências culturais e de questionar ideias que pareciam óbvias. E esse processo não acontece apenas com obras consideradas clássicas ou com títulos difíceis de ler. Um romance popular, uma biografia, um livro de investigação ou uma história de fantasia também podem despertar curiosidade e abrir caminhos para novas descobertas.
Existe ainda uma diferença entre acompanhar uma história e conhecer apenas seu resumo. A inteligência artificial consegue organizar os principais acontecimentos de um romance, explicar o contexto histórico de uma obra ou apresentar as ideias centrais de um ensaio. Essas ferramentas podem ser úteis para estudar, pesquisar e descobrir novas leituras, mas não substituem integralmente a experiência de percorrer as páginas de um livro. Ler permite acompanhar a construção de um argumento, perceber detalhes da linguagem e encontrar significados que nem sempre aparecem em uma síntese. Também exige que o leitor interprete o que está diante dele, estabeleça relações e forme suas próprias conclusões. A tecnologia pode facilitar o acesso ao conhecimento, mas ter acesso a informações não é exatamente a mesma coisa que construir repertório.
Isso não significa que seja necessário escolher entre livros e tecnologia. O Kindle, por exemplo, faz parte da minha própria rotina de leitura e permite carregar dezenas de títulos sem precisar de uma estante inteira. As redes sociais podem apresentar autores novos, enquanto ferramentas de inteligência artificial ajudam a esclarecer dúvidas e a encontrar caminhos para aprofundar determinados assuntos. O ponto está em como usamos esses recursos e no espaço que reservamos para cada experiência. Em vez de tratar as telas como um problema por si só, vale pensar em como elas podem conviver com atividades que exigem mais concentração e continuidade. Afinal, a mesma tecnologia que nos apresenta uma quantidade enorme de informações também pode nos ajudar a encontrar a próxima história que queremos ler.
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Em um momento no qual ferramentas de inteligência artificial conseguem responder perguntas, resumir livros, produzir textos e até simular conversas emocionais, vale questionar o que ainda depende da experiência humana. Ter acesso a informações nunca foi tão fácil, mas isso não significa que estejamos necessariamente mais preparados para interpretar o mundo. Conhecimento também envolve construir referências, reconhecer contradições, compreender perspectivas diferentes e relacionar experiências. São processos que exigem tempo, curiosidade e, principalmente, contato com ideias que nem sempre confirmam aquilo em que acreditamos.
Isso não significa que a inteligência artificial seja incapaz de reproduzir interações convincentes. Um estudo publicado em janeiro de 2026 na revista científica Communications Psychology, da Nature, reuniu 492 participantes em dois experimentos sobre formação de vínculos. Em determinadas condições, as respostas produzidas por inteligência artificial foram capazes de gerar uma sensação de proximidade até maior do que aquelas produzidas por pessoas. O resultado, porém, tinha uma particularidade: esse efeito era mais forte quando os participantes acreditavam estar conversando com outro ser humano. Quando eram informados de que interagiam com uma IA, a percepção de proximidade diminuía. A pesquisa evidencia o quanto essas ferramentas podem reproduzir sinais de intimidade, mas também levanta uma questão sobre a diferença entre uma interação convincente e uma relação construída entre pessoas.
A leitura oferece outra possibilidade de contato com experiências humanas. Ao acompanhar uma narrativa, encontramos personagens com valores, origens e dilemas diferentes dos nossos. Precisamos interpretar suas escolhas, compreender suas motivações e, muitas vezes, rever julgamentos feitos ao longo da história. Uma revisão sistemática com meta-análise publicada em setembro de 2026 na revista Frontiers in Psychology analisou 21 estudos sobre leitura literária e habilidades relacionadas à empatia. Os resultados apontaram uma associação positiva, embora modesta e dependente do contexto, entre a leitura e a capacidade de compreender perspectivas alheias. Isso não significa que abrir um livro transforme automaticamente alguém em uma pessoa mais empática, mas indica que a literatura pode oferecer oportunidades para exercitar essa habilidade.
Existe, ainda, algo que nenhuma ferramenta consegue experimentar em nosso lugar: a própria vida. Conversar com alguém que pensa diferente, conhecer uma realidade distante da nossa, ouvir uma história de família ou descobrir um autor em uma livraria são experiências que não se resumem à quantidade de informações que podemos extrair delas. A tecnologia pode facilitar esses encontros, apresentar novos assuntos e ajudar a compreender o que ainda não conhecemos. Mas o repertório se constrói quando levamos essas descobertas para nossas relações, questionamos o que aprendemos e desenvolvemos nossas próprias interpretações. Talvez seja justamente por isso que os livros continuem importantes em uma época de respostas instantâneas: eles nos lembram que compreender o mundo é um processo que não pode ser inteiramente terceirizado.
Jornalista de lifestyle. Moda, beleza, gastronomia, esportes e tecnologia sob o olhar das tendências que movem a vida cotidiana.
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