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Entre a vitrine e o museu, a moda busca seu lugar nas artes
A fronteira entre moda, arte e produto fica cada vez mais difícil de definir à medida que novas tecnologias ampliam o campo da criação
Créditos: Reprodução/X
A The Pokémon Company International criticou o uso recorrente de sua propriedade intelectual pela Casa Branca após o governo dos Estados Unidos publicar nas redes sociais um meme associado ao slogan “Make America Great Again”
Imagine que você é o gestor de uma das marcas mais valiosas do mundo, como Pokémon. Seu objetivo é a universalidade: ser amado por crianças e adultos, em São Paulo ou em Nova York, independentemente de inclinações políticas. De repente, você acorda e vê a sua mascote — um símbolo de união e amizade — sendo usado como trilha sonora para vídeos de deportação ou campanhas divisivas. O pesadelo do branding moderno tem nome: sequestro de neutralidade.
O recente protesto formal da Pokémon Company contra o governo dos Estados Unidos pelo uso não autorizado de suas imagens acendeu um alerta global. Não se trata apenas de direitos autorais. Trata-se da luta das marcas para não serem arrastadas para o campo de batalha da polarização.
Para entender o peso do que está acontecendo agora, precisamos olhar para o retrovisor. A entrada da política nos games não é uma invenção de 2026, mas a forma como ela ocorre mudou drasticamente:
Para empresas como Nintendo, Microsoft ou Activision, reagir a esse movimento é um campo minado. Se decidem processar o governo, correm o risco de alienar a parcela de consumidores que apoia a gestão. Se silenciam, permitem que sua marca seja associada a ideologias que podem ferir sua imagem global a longo prazo.
O protesto da Pokémon Company é um movimento de autodefesa de marca. Ao afirmar que sua missão é “unir o mundo”, a empresa tenta erguer um muro de contenção. No entanto, na era dos memes e da IA generativa, as marcas perderam o controle sobre como seus ativos são recombinados. O “Gotta Catch ‘Em All” (Temos que pegar, em português), ressignificado para o contexto de imigração, é um exemplo brutal de como o contexto pode assassinar o conceito original de uma marca.
A análise desse cenário revela uma mudança profunda de paradigma. A comunicação governamental descobriu que a estética dos games funciona como uma “camada de invisibilidade” para a crítica. Afinal, torna-se muito mais complexo atacar uma política pública quando ela vem embalada em um meme divertido ou em uma referência nostálgica da infância.
O risco para a sociedade, contudo, é a banalização do impacto real. Quando transformamos a guerra ou a segurança interna em um nível de Call of Duty, ocorre uma dessensibilização do olhar. A política corre o risco de deixar de ser sobre vidas humanas para se tornar uma métrica de score, skins e engajamento digital.
O embate entre o Pikachu e a Casa Branca é o capítulo mais recente da morte da neutralidade. Em um mundo hiperconectado, não existe mais “espaço seguro” para as marcas.
A provocação que fica para esta semana é: até que ponto devemos permitir que os nossos refúgios de lazer e fantasia sejam transformados em ferramentas de propaganda? Se até o Master Chief foi recrutado sem alistamento, quem será o próximo? O jogo político mudou, e agora, ele não aceita mais o botão de pause.
Jornalista e pesquisador com mais de 20 anos dedicados ao universo das HQs, livros, séries e filmes. Escreve a coluna PopTec. Porque o pop não vive sem tec. E tec é o que há de mais pop em um país em que existem mais smartphones do que pessoas.
12 de março de 2026LifesTec
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