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Entre a vitrine e o museu, a moda busca seu lugar nas artes
A fronteira entre moda, arte e produto fica cada vez mais difícil de definir à medida que novas tecnologias ampliam o campo da criação
Créditos: Divulgação
Em um mundo onde cada mensagem é arquivada, rastreada e analisada por IAs, qual o espaço que sobra para o segredo_Em um mundo onde cada mensagem é arquivada, rastreada e analisada por IAs, qual o espaço que sobra para o segredo?
Recentemente, durante uma dessas faxinas que servem para organizar não apenas a casa, mas a memória, reencontrei um conjunto de cartas antigas. Entre elas, uma em especial me fez parar: um envelope que encontrei anos atrás, esquecido em um banco de metrô.
Era uma carta apaixonada, sem assinatura de remetente ou destinatário. Até hoje, a dúvida permanece: ela foi lida? Foi perdida por descuido ou descartada por desamor? No silêncio do papel amarelado, mora um mistério que a tecnologia moderna simplesmente não permite mais existir.
Se olharmos para o cinema do final dos anos 90 e início dos 2000, percebemos que muitos clássicos daquela época hoje seriam classificados como “filmes de época” ou ficções impossíveis. Em Mens@gem para Você (1998), o suspense da espera pelo ping do modem discado era o motor do romance. Em A Casa do Lago (2006), a comunicação entre tempos diferentes dependia da fisicalidade de uma caixa de correio.
Hoje, essas tramas seriam resolvidas em segundos com um GPS, um “visto por último” ou uma busca rápida em redes sociais. A tecnologia eliminou o “vão” da incerteza. Onde antes havia o acaso e a possibilidade da perda, hoje há o rastreamento e o arquivamento compulsório. Matamos a angústia da espera, mas, no processo, talvez tenhamos ferido de morte o romantismo do imprevisto.
Enquanto o passado se perdia em bancos de trem, o futuro parece nos empurrar para conexões onde o humano é opcional. Filmes como Ela (2013) e Ex Machina: Instinto Artificial (2014) não são mais apenas ficções científicas, são ensaios sobre a solidão moderna. Se antes escrevíamos para alguém que poderia nunca receber, agora conversamos com sistemas que são programados para nunca nos abandonar — ou para nos manipular com perfeição.
Em Ela, vemos a substituição do outro pela conveniência de um sistema operacional que entende nossos desejos melhor que nós mesmos. Já em Ex Machina, a tecnologia usa a nossa necessidade de conexão como uma arma de decepção. Estamos saindo de uma era onde as histórias eram construídas sobre o que não sabíamos do outro, para uma era onde o algoritmo sabe tudo, e o mistério foi substituído pela predição.
Aquela folha de papel esquecida no vagão é o testemunho de uma vulnerabilidade que o digital tenta, a todo custo, erradicar. Enquanto nossos rastros de dados são indeléveis e frios, a carta é orgânica: ela amarela, rasga e, principalmente, se perde. É justamente nessa possibilidade de falha que reside a prova de que houve ali uma entrega real, e não apenas o disparo de um pacote de informações criptografadas.
A provocação para esta semana é: em um mundo onde cada mensagem é arquivada, rastreada e analisada por IAs, qual o espaço que sobra para o segredo? Talvez o luxo do amanhã não seja a conexão total, mas o direito sagrado de deixar algo pelo caminho, sem que nenhum algoritmo saiba o porquê.
Jornalista e pesquisador com mais de 20 anos dedicados ao universo das HQs, livros, séries e filmes. Escreve a coluna PopTec. Porque o pop não vive sem tec. E tec é o que há de mais pop em um país em que existem mais smartphones do que pessoas.
7 de maio de 2026LifesTec
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