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Entre a vitrine e o museu, a moda busca seu lugar nas artes

A fronteira entre moda, arte e produto fica cada vez mais difícil de definir à medida que novas tecnologias ampliam o campo da criação

Por: Clarissa Palácio

O reconhecimento artístico da moda não precisa significar colocar roupas atrás de uma vitrine e afastá-las do cotidiano

Créditos: Freepik

O reconhecimento artístico da moda não precisa significar colocar roupas atrás de uma vitrine e afastá-las do cotidiano

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  • Ana Isabel de Carvalho Pinto, fundadora da Visionary Brazil e presidente do Style Council da Shop2gether, lidera discussões sobre a moda como expressão artística.
  • Em agosto de 2026, a Visionary Brazil realizou em São Paulo um encontro com o Brazilian Fashion Council e os cofundadores da The Fabricant para debater IA e outras tecnologias na moda.
  • Segundo Pinto, a baixa valorização da moda decorre da estrutura do setor, que a vê mais como ferramenta de venda do que como democratizadora de acesso cultural.
  • A Visionary Brazil busca equilibrar negócios criativos com pouca estrutura e empresas altamente organizadas que podem limitar a dimensão cultural da moda.
Por Clarissa Palácio

 

Uma pintura vai para a parede. Uma escultura ocupa uma sala. Um filme chega às telas. Uma música entra em uma playlist. A roupa, por outro lado, vai para o corpo e custa a ser percebida como arte, sobrando para si apenas a categoria de produto. A diferença parece simples, mas ajuda a explicar uma questão que acompanha a moda há décadas: apesar de envolver pesquisa, autoria, técnica, narrativa e experimentação, ela ainda não ocupa no imaginário coletivo o mesmo lugar reservado a outras manifestações artísticas

Para Ana Isabel de Carvalho Pinto, fundadora e presidente da Visionary Brazil e presidente de Style Council da Shop2gether, o problema está menos na capacidade criativa da moda do que na maneira como o setor é estruturado. Em sua trajetória profissional, ela passou pelo desenvolvimento de produtos, chão de fábrica, varejo, comércio eletrônico e gestão de marcas, experiências que, segundo ela, ajudaram a construir uma visão ampla sobre o setor. “Eu vejo que a minha trajetória ancorou desde o caixa eletrônico até o e-commerce de moda”, afirma. Para Ana, essa experiência também mostrou como a criação pode perder espaço quando não encontra estrutura para chegar ao mercado.

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A discussão ganha novos contornos em um momento em que tecnologia, novos materiais e ferramentas digitais estão alterando a maneira como roupas são imaginadas, desenvolvidas e comercializadas. Inteligência artificial, modelagem 3D, rastreabilidade, novos pigmentos e materiais de origem alternativa aparecem nesse processo não apenas como recursos de eficiência, mas como ferramentas capazes de ampliar as possibilidades criativas. Em agosto de 2026, a própria Visionary Brazil promoveu, em São Paulo, um encontro com o Brazilian Fashion Council e os cofundadores da The Fabricant para discutir os impactos da inteligência artificial e de outras tecnologias na moda. A questão, portanto, não é apenas se a tecnologia vai mudar a roupa, mas o que acontece quando ela também muda a forma como entendemos quem cria, qual é o valor de uma criação e até onde a moda pode ser considerada arte.

Quando a roupa deixa de ser apenas roupa

Ana conhece a moda por diferentes pontos de vista. Sua entrada no setor aconteceu ainda na faculdade, quando começou a vender cintos produzidos pela irmã de seu então namorado para colegas. Depois, cursou Administração, trabalhou com desenvolvimento de produtos, participou de uma loja de varejo e passou a desenvolver produtos para marcas. Também teve uma marca própria de seda, experiência que, segundo ela, permitiu sentir diretamente a tensão entre imaginar uma peça e descobrir quanto aquela criação custaria para existir. “O trabalho que eu dava para produzir limitava a minha capacidade criativa, a minha amplitude criativa”, conta.

Essa experiência ajuda a explicar por que Ana não separa completamente criatividade e negócio. Para ela, criar uma peça envolve uma série de decisões que vão muito além da aparência final, incluindo materiais, técnicas, produção, custos, comportamento e contexto cultural. Ao longo dos anos, a passagem pelo varejo também acrescentou outra camada à percepção da empresária: entender por que uma pessoa escolhe determinada peça. No e-commerce multimarca, ela passou cerca de uma década observando esse encontro entre criadores e consumidores. “Tem muito a ver com cultura, com inovação, com o que está vindo de senso comum”, afirma.

É nesse ponto que aparece uma das contradições centrais da moda. Uma roupa pode carregar referências históricas, técnicas artesanais, escolhas estéticas e uma visão autoral, mas continua tendo uma função prática. “A roupa se veste”, resume Ana. Para ela, é justamente essa funcionalidade que acaba afastando a peça da percepção imediata de obra artística, embora ela reúna características semelhantes às encontradas em outras formas de criação. “Ela é uma manifestação artística que envolve autoria, pesquisa, narrativa, design, tudo que uma obra de arte tem”, afirma.

A diferença, nesse caso, não estaria necessariamente no processo criativo, mas na maneira como o resultado é consumido. Um quadro é observado. Uma roupa é usada, levada para a rua, combinada com outras peças e incorporada à identidade de quem a veste. Essa dimensão funcional cria uma relação particular entre criação e consumo, na qual o objeto artístico também se transforma em mercadoria de uso cotidiano. Para Ana, é justamente aí que surge a dificuldade de enxergar a moda como uma única atividade que reúne cultura e indústria. “A gente pensa em cultura, em moda como cultura e a gente pensa em moda como indústria, mas a gente ainda não pensa em moda como indústria cultural”, afirma.

Da fábrica ao e-commerce, uma visão de dentro da moda

A trajetória de Ana acompanha algumas das transformações pelas quais o mercado brasileiro passou nas últimas décadas. Antes de chegar ao comércio eletrônico, ela esteve diretamente envolvida com a produção e chegou a aprender a costurar, modelar e bordar, além de conhecer diferentes máquinas utilizadas na fabricação de roupas. Essa experiência prática criou uma visão que ela define como “360 da moda”, reunindo conhecimento sobre produção, varejo, consumo e criação. Mais tarde, a entrada no digital acrescentou outra dimensão à experiência. O resultado foi uma trajetória que não ficou restrita nem ao lado criativo nem ao lado comercial.

Foi nesse contexto que surgiu o Shop2gether. Segundo Ana, o projeto nasceu da percepção de que o comércio eletrônico brasileiro ainda estava atrás de mercados mais maduros e era encarado principalmente como uma ferramenta de venda. Ela enxergava, porém, uma possibilidade diferente: usar a internet para ampliar o acesso à informação e às marcas de moda. “O e-commerce é acessibilidade”, afirma. A ideia era fazer com que a comunicação e o propósito de marcas antes concentradas nos grandes centros chegassem a consumidores de outras regiões.

A mudança é relevante porque desloca a discussão sobre tecnologia no varejo. Em vez de tratar o digital apenas como um canal para vender mais, Ana passou a enxergá-lo como uma ferramenta de democratização de acesso. Naquele momento, segundo ela, o consumidor interessado em moda precisava recorrer principalmente aos grandes centros comerciais ou a veículos especializados, enquanto a experiência de navegação e compra pela internet ainda era pouco desenvolvida. O e-commerce poderia, então, aproximar consumidor e criação. Mais do que transportar uma loja física para uma tela, a proposta era transportar também a informação, a identidade e a narrativa das marcas.

Essa experiência também revelou uma dificuldade recorrente para os criadores brasileiros: transformar capacidade criativa em negócio sustentável. Ana afirma que o país possui “uma ancestralidade, uma artesanalidade, uma questão cultural muito forte”, que serve de matéria-prima para marcas autorais e produtos diferenciados. O problema, segundo ela, está na estrutura necessária para transformar esse patrimônio criativo em negócios capazes de crescer. Isso envolve gestão, investimento, tecnologia, comercialização e uma visão de ecossistema. “O criador precisa entender que aquilo é um negócio”, afirma.

Créditos: Victor Affaro

Legenda: Ana Isabel de Carvalho Pinto, fundadora e presidente da Visionary Brazil e presidente de Style Council da Shop2gether

O que a Visionary procura construir

A criação da Visionary Brazil aparece como consequência dessa experiência acumulada. Ana conta que passou a se incomodar com uma espécie de desequilíbrio entre dois extremos do mercado: de um lado, negócios criativos com grande potencial, mas pouca estrutura; de outro, empresas altamente estruturadas, nas quais metas e indicadores podem acabar limitando a dimensão cultural da moda. “Eu no meio”, resume. A partir dessa posição intermediária, ela identificou a possibilidade de aproximar esses dois universos.

A Visionary foi lançada em 2026 com a proposta de atuar sobre negócios de moda, design, lifestyle e bem-estar, combinando investimento, mentoria e desenvolvimento. Segundo reportagem publicada pela Exame em junho de 2026, a expectativa da empresa era acompanhar entre cinco e oito negócios no primeiro ciclo anual e alcançar R$ 10 milhões em faturamento no período. A publicação também descreveu a Visionary como uma plataforma voltada a transformar talentos da economia criativa em negócios escaláveis. A atuação, portanto, amplia a experiência anterior de Ana: se o varejo aproximava marcas e consumidores, a nova empreitada busca trabalhar a estrutura existente antes que esse encontro aconteça.

Para Ana, esse movimento é necessário porque cultura e negócio não precisam competir. “A dimensão cultural, dimensão comercial não inviabiliza a dimensão cultural”, afirma. Na avaliação da empresária, o Brasil já possui reconhecimento internacional de sua produção cultural, mas ainda precisa desenvolver uma dimensão comercial capaz de transformar essa força em negócios mais estruturados e competitivos. Ela cita marcas brasileiras reconhecidas internacionalmente como exemplos de uma possibilidade que ainda não se espalhou por todo o setor. “Falta dimensão comercial”, resume.

A discussão encontra respaldo também em movimentos institucionais recentes. Em julho de 2026, o Governo do Estado de São Paulo lançou edital do ProAC específico para projetos de design de moda e design de produto com relevância artística e cultural. O programa destinou R$ 2 milhões ao módulo de Design de Moda, contemplando dez projetos com R$ 200 mil cada, segundo a Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado. O próprio edital define o design de moda como uma atividade que articula aspectos estéticos, funcionais, tecnológicos, simbólicos, culturais e produtivos. Na prática, a iniciativa mostra que a fronteira entre moda, design, cultura e economia já aparece também em políticas públicas de fomento.

Moda como indústria cultural

A expressão “indústria cultural” é central para a visão de Ana. Para ela, reconhecer a moda dessa maneira significa deixar de tratá-la como dois universos separados, um cultural e outro comercial, e construir estruturas capazes de conectar os dois. O objetivo não seria retirar a dimensão artística da criação para transformá-la em produto, mas criar condições para que a criação alcance mais pessoas e gere valor. “A gente precisa ter uma visão de ecossistema da moda”, afirma. Segundo Ana, isso exigiria mais instituições e iniciativas capazes de atuar em diferentes pontos da cadeia.

Essa lógica também muda a forma de pensar o que acontece depois que uma peça é criada. Uma referência cultural, uma técnica artesanal ou uma matéria-prima brasileira podem permanecer restritas a um pequeno grupo de criadores ou ganhar escala quando encontram tecnologia, indústria e investimento. Ana cita como exemplo técnicas e materiais que poderiam ser transformados em tecidos e posteriormente exportados. Para ela, o desafio está em construir as ferramentas capazes de fazer essa passagem sem apagar a origem da criação. “Quando a gente olha esses valores culturais como negócio, a gente cria ferramentas para que esses valores culturais virem realmente produtos novos”, afirma.

O exemplo também se conecta à biodiversidade brasileira. Ana menciona iniciativas relacionadas a materiais naturais e observa uma contradição: enquanto empresas brasileiras podem comprar determinados materiais desenvolvidos industrialmente no exterior, o país possui recursos e conhecimentos que poderiam estar na origem de cadeias produtivas próprias. O caso do couro de abacaxi aparece na conversa como uma referência dessa possibilidade. A questão, portanto, não seria apenas criar uma matéria-prima diferente, mas desenvolver tecnologia, indústria e mercado para que ela consiga existir em escala. É nesse ponto que a dimensão cultural se encontra com inovação e desenvolvimento econômico.

Em 2026, esse debate ganhou também espaço dentro das políticas nacionais para o setor. O Ministério da Cultura apresentou, em julho, o programa Brasil Criativo, que considera a dimensão simbólico-cultural como elemento de geração de valor para bens e serviços brasileiros. Segundo o ministério, a política reúne iniciativas relacionadas à economia criativa, ao trabalho no campo da cultura e à organização de atividades produtivas associadas aos setores culturais e criativos. A pasta também define os chamados ecossistemas culturais e criativos como arranjos que conectam agentes, instituições, saberes, práticas e atividades econômicas.

 

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A tecnologia muda a roupa antes mesmo de ela existir

Se a moda pode ser entendida como uma linguagem, a tecnologia começa a alterar também o vocabulário disponível para quem cria. Ana cita materiais, pigmentos, rastreabilidade e novas técnicas como exemplos de recursos que podem mudar não apenas a produção, mas a maneira como as pessoas se relacionam com as roupas. “Vai com certeza mudar culturalmente a nossa forma de vestir, de olhar o mundo, de se relacionar com as peças”, afirma. Para ela, a transformação já está em curso, embora o consumidor ainda nem sempre reconheça ou esteja disposto a pagar mais por determinadas inovações.

A modelagem digital e a inteligência artificial entram nesse cenário como ferramentas que ampliam o campo de experimentação. Ana não acredita que a tecnologia elimine a autoria humana, porque o processo ainda depende das escolhas e dos comandos de quem está criando. Ela compara a situação ao desenvolvimento de uma peça: antes, testar uma alteração muito distante do desenho original poderia exigir tempo, material e trabalho de produção. Com uma ferramenta digital, diferentes possibilidades podem ser exploradas rapidamente. “O que mudou é a minha forma de pensar criativamente”, afirma.

Essa visão também muda a discussão sobre autoria. Em vez de enxergar a inteligência artificial como uma substituta automática do criador, Ana a considera uma ferramenta que pode ampliar o número de caminhos disponíveis durante o processo. “Se você souber usar essa ferramenta, você vai ter um poder de desenvolvimento muito interessante”, diz. Para ela, a capacidade de selecionar, rejeitar e aperfeiçoar os resultados continua sendo humana. O consumidor, por sua vez, passa a ter também um papel de avaliação sobre o que considera relevante ou desejável.

Quando criatividade também vira valor

Existe, ainda, uma consequência econômica na maneira como a sociedade enxerga uma peça. Se a roupa é tratada apenas como mercadoria, seu valor tende a ser associado principalmente a matéria-prima, acabamento, marca, distribuição e desejo de consumo. Quando a criação também é reconhecida por seu conteúdo cultural e autoral, entram em cena outros elementos, como pesquisa, identidade, propósito, propriedade intelectual e contexto. Ana acredita que o valor artístico está relacionado à estrutura criativa que existe por trás da peça. “Em tudo o que foi levado em consideração para desenvolver, independente de ser uma obra de arte ou se é uma roupa”, afirma.

A exclusividade, nesse sentido, pode ser uma das dimensões desse valor, mas não é a única. Ana cita o caso de joias criadas por artistas que, quando reproduzidas em diferentes edições, podem ter seu valor diluído pela perda de exclusividade. Ao mesmo tempo, ela afirma que o propósito pessoal ou cultural de uma criação pode ser ainda mais importante. Como exemplo, menciona o trabalho do designer indígena Senhor do Rio e sua camiseta “Pulmão da Amazônia”, cuja narrativa ligada à exploração da Amazônia e às comunidades indígenas, para ela, confere à peça um valor que vai além do logotipo de uma marca de luxo.

Essa percepção ajuda a deslocar a discussão sobre moda e arte para uma pergunta mais ampla: quem determina o valor de uma criação? Não existe, para Ana, uma fórmula objetiva que estabeleça o momento em que uma roupa passa a ser arte. O que existe é uma combinação entre criatividade, propósito, contexto e, em alguns casos, exclusividade. Uma peça pode continuar sendo comercializada e, ainda assim, carregar uma dimensão cultural e artística. A questão central passa a ser menos a separação entre arte e produto e mais a capacidade de reconhecer o conteúdo criativo que existe dentro de um produto.

A própria ideia de acessibilidade também entra nessa discussão. Ana afirma que não vê sentido em uma moda culturalmente relevante ocupar um lugar completamente isolado da sociedade. “Toda arte deveria ser um lugar de expansão”, diz. Para ela, uma marca pode atuar no luxo e, ao mesmo tempo, produzir criações que dialoguem com questões culturais do seu tempo. O papel do designer, nessa visão, também envolve traduzir o espírito de uma época, fazendo com que a moda seja capaz de registrar transformações sociais e culturais.

Do Brasil para o mundo

Se o desafio é transformar criatividade em valor, o Brasil parte de uma posição particular. O país reúne diferentes tradições, materiais, técnicas, territórios e referências culturais, mas ainda enfrenta dificuldades para transformar essa diversidade em negócios capazes de alcançar mercados internacionais. Ana resume a questão dizendo que o país já possui uma dimensão cultural reconhecida, mas precisa desenvolver sua dimensão comercial. “A gente precisa conseguir dimensionar comercialmente toda essa nossa estrutura cultural”, afirma.

O movimento não se restringe à moda. O Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional informou, em maio de 2026, que a Rota da Moda já abrangia 66 municípios organizados em cinco polos nos estados de Goiás, Minas Gerais, Ceará e Rio Grande do Norte. A iniciativa busca fortalecer cadeias produtivas, ampliar redes de comercialização, apoiar inovação local e estimular a participação de empreendedores em eventos estratégicos. Em fevereiro, o governo também promoveu no Ceará um intercâmbio técnico e cultural voltado à moda autoral e artesanal, reunindo representantes de seis estados.

O artesanato aparece nesse cenário como uma das áreas em que cultura e negócio ainda precisam se aproximar. Para Ana, existe uma oportunidade de aproximar artesãos brasileiros da indústria e do mercado internacional sem eliminar a identidade que dá origem às peças. A dificuldade está em construir estruturas que permitam ampliar produção, distribuição e acesso sem transformar a criação em uma simples matéria-prima descontextualizada. A discussão é particularmente relevante em um país no qual diferentes comunidades preservam técnicas próprias, materiais e referências culturais. Transformar esse conhecimento em negócio exige mais do que vender o objeto final. Exige desenvolver toda a cadeia ao redor dele.

Em 2026, essa aproximação também aparece em iniciativas voltadas especificamente à exportação do artesanato. A plataforma Brasil Exportação divulgou a trilha “Do Feito à Mão ao Mundo”, realizada em parceria entre CNA, CNI, Ministério das Relações Exteriores, Sebrae e ApexBrasil, com foco na preparação de artesãos para o mercado internacional. A ação faz parte de uma agenda que trata artesanato, moda e economia criativa também como setores de comércio exterior. Para Ana, esse tipo de estrutura é justamente o que pode transformar uma expressão cultural localizada em um produto capaz de circular internacionalmente sem perder sua origem.

Uma nova forma de olhar para a criação

A discussão sobre moda como arte não parece depender de escolher um lado. Uma roupa pode ser produto, negócio, objeto de design, manifestação cultural e criação artística ao mesmo tempo. O que muda é o que acontece quando essas dimensões deixam de ser tratadas separadamente. Para Ana, o caminho passa por reconhecer que cultura e estrutura precisam caminhar juntas. “A Visionary hoje está ali fazendo essa conexão real entre cultura de moda e estrutura de moda”, afirma.

A tecnologia pode participar dessa transformação justamente porque amplia as ferramentas disponíveis para a criação e para a estruturação do setor. Uma técnica artesanal pode ganhar escala com uma máquina. Um material pode ser desenvolvido a partir de novas pesquisas. Uma peça pode ser prototipada digitalmente antes de chegar à fábrica. Uma marca pode alcançar consumidores de outros países por meio do comércio eletrônico. Em todos esses casos, a tecnologia não substitui necessariamente o conteúdo cultural da criação, mas pode funcionar como uma infraestrutura para que ele circule.

Essa lógica também ajuda a entender por que o reconhecimento artístico da moda não precisa significar colocar roupas atrás de uma vitrine e afastá-las do cotidiano. Ana rejeita justamente essa ideia de distanciamento. Para ela, a arte precisa circular pela sociedade e traduzir o tempo em que existe. A moda, por estar em contato direto com o corpo e com a vida cotidiana, talvez tenha justamente uma capacidade particular de registrar transformações culturais. Quando uma peça incorpora uma técnica, uma matéria-prima, uma narrativa ou uma referência de seu tempo, ela pode carregar consigo mais do que uma tendência.

Clarissa Palácio

Jornalista de lifestyle. Moda, beleza, gastronomia, esportes e tecnologia sob o olhar das tendências que movem a vida cotidiana.

11 de setembro de 2026

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