Na economia criativa, conexão vale tanto quanto portfólio
Em um mercado cada vez mais digital, fragmentado e apoiado por inteligência artificial, saber formar redes de colaboração pode ser tão importante quanto ter um bom portfólio
Em uma economia criativa cada vez mais pulverizada, a carreira pode ser construída por uma sequência de projetos, encontros e parcerias, e não apenas por uma posição fixa dentro de uma empresa
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Sarça lançou o Sarça Connects, plataforma que liga profissionais criativos a projetos sem exigir exclusividade.
O programa foi idealizado por Rodrigo de Paula, fundador da produtora Sarça, que vê os criativos como empreendedores da própria arte.
A iniciativa surge no contexto da inteligência artificial e da expansão da creator economy, que aumentam o número de freelancers.
Segundo Rodrigo, combinar criatividade, estratégia e demanda comercial facilita a conexão com agências e valoriza a rede de contatos.
Por Clarissa Palácio
Você pode ter um ótimo portfólio, dominar uma câmera com maestria, saber dirigir uma produção ou construir uma identidade visual reconhecível. Mas e se, para o próximo trabalho, o que fizer diferença for justamente quem você consegue colocar ao seu lado? Na economia criativa, a resposta para essa pergunta começa a mudar à medida que os projetos ficam mais rápidos, as equipes menores e as ferramentas digitais mais presentes. O talento continua sendo a matéria-prima, mas já não trabalha sozinho. Em muitos casos, a capacidade de encontrar as pessoas certas para cada ideia passa a fazer parte do próprio trabalho.
A transformação acontece em um momento em que a inteligência artificial começa a ocupar etapas da produção criativa e a creator economy amplia o número de profissionais que atuam de forma independente. Ao mesmo tempo, marcas e agências precisam produzir mais conteúdo para diferentes plataformas, formatos e públicos. O resultado é um mercado no qual nem sempre faz sentido manter uma equipe fixa para todos os projetos. Em vez disso, profissionais podem se reunir de acordo com a linguagem, o orçamento e as necessidades de cada produção.
É nesse cenário que o networking deixa de ser apenas uma ferramenta para conseguir oportunidades e passa a funcionar como parte da infraestrutura de uma carreira criativa. Fotógrafos, diretores, stylists, designers e outros profissionais podem circular por diferentes projetos e formar equipes específicas para cada trabalho. Um exemplo desse movimento aparece no Sarça Connects, iniciativa criada pela Sarça para conectar profissionais criativos a projetos sem exigir exclusividade. Para Rodrigo de Paula, fundador da produtora, a proposta nasceu justamente da percepção de que muitos criativos já são empreendedores da própria arte. “A gente não prende esses criativos à Sarça a ponto de eles só trabalharem através de nós”, afirma.
O portfólio ainda importa. Mas não está sozinho
Se antes bastava mostrar o que você já havia feito, hoje também é preciso demonstrar como você consegue participar de algo que ainda não existe. Essa mudança está relacionada à própria maneira como os trabalhos criativos são organizados. Para Rodrigo, o profissional que entende o momento do mercado consegue conectar melhor criatividade, estratégia e demanda comercial. “Estratégia sempre atrelada à criatividade é o que alcança o nível de desejo das agências de se conectar com a produtora”, explica. Para ele, a capacidade de interpretar o que o outro deseja e antecipar ideias também faz parte da construção de uma conexão profissional.
A questão não é exatamente conhecer mais pessoas, mas saber trabalhar com elas. Um diretor pode precisar de um fotógrafo para determinado tipo de linguagem, de um stylist para outra estética ou de um profissional de arte que tenha repertório específico para uma campanha. Cada projeto pode exigir uma combinação diferente. “Cada criativo carrega uma vivência, um olhar, uma identidade única”, afirma Rodrigo. Segundo ele, os profissionais acabam se encaixando conforme o formato da produção e aquilo que faz sentido para cada um no âmbito criativo.
A lógica ganha ainda mais importância conforme as marcas procuram produzir diferentes tipos de conteúdo sem necessariamente ampliar suas estruturas internas. Rodrigo afirma que existem profissionais que continuam sendo procurados individualmente, mas que a busca por eficiência também aumentou o interesse por soluções mais completas. “Hoje, por conta de custo e de eficiência, elas buscam um pacote completo: bom criativo aliado a uma produtora que dialoga com a marca”, diz. Para ele, essa combinação se tornou estratégica porque reúne criação e execução dentro das limitações de cada orçamento.
A expansão da creator economy ajuda a explicar por que esse tipo de relação ganhou espaço. Em 2026, o Ministério do Empreendedorismo passou a discutir formalização, acesso a crédito, tributação e políticas públicas voltadas aos criadores de conteúdo, reconhecendo a atividade como parte de uma economia digital em transformação. O debate mostra que produzir conteúdo deixou de ser apenas uma atividade associada às redes sociais e passou a envolver questões de trabalho, empreendedorismo e geração de renda. Nesse ambiente, o profissional criativo também precisa administrar a própria carreira como negócio. A rede de contatos, portanto, pode assumir uma função que vai além da indicação informal de trabalhos.
Créditos: Divulgação
Legenda: Rodrigo de Paula, fundador da produtora Sarça
Quando a IA acelera, quem trabalha junto também muda
A inteligência artificial entrou nessa equação como mais uma ferramenta capaz de modificar a maneira como o trabalho criativo é produzido. Em 2026, pesquisas da Adobe mostram que profissionais já utilizam IA em diferentes etapas do processo, enquanto empresas enfrentam uma demanda crescente por conteúdo. A tecnologia pode ajudar a acelerar tarefas, gerar alternativas e reduzir parte do tempo gasto em determinadas etapas. Mas ela não resolve uma questão que continua sendo essencial: decidir qual ideia faz sentido e quem precisa estar envolvido para executá-la.
Na experiência de Rodrigo, essa mudança começou antes da popularização da inteligência artificial. A pandemia mostrou que o trabalho remoto poderia funcionar de maneira distribuída, enquanto a IA passou a atuar como uma espécie de assistente para tarefas que fazem parte da rotina de um criativo. “Os processos antes dependiam de muita gente e de uma dinâmica diária pesada; hoje a gente escala com times menores, com fluxos e processos melhor construídos”, afirma. Segundo ele, isso também permite criar junto com profissionais de diferentes partes do Brasil.
O resultado é uma estrutura menos dependente da proximidade física e mais dependente da capacidade de coordenar pessoas. Uma equipe pode ser montada para um único trabalho e depois se desfazer para dar lugar a outra combinação. Isso não significa necessariamente relações mais distantes, mas uma forma diferente de organizar a colaboração. No audiovisual, por exemplo, Rodrigo afirma que é comum reunir um novo produtor, diretor de fotografia, profissional de arte ou stylist a cada produção. “Acho que é papel do diretor construir esses times pra trabalharem juntos de forma dinâmica, eficaz e criativa”, explica.
A própria transformação do mercado publicitário ajuda a entender por que esse modelo se tornou mais relevante. Segundo Rodrigo, a pressão por custos não vem diretamente da IA, mas da migração de parte dos investimentos da televisão para internet, redes sociais e streaming. O orçamento passou a ser distribuído entre mais formatos e profissionais, incluindo influenciadores, creators e outros grupos criativos. “Quem teve a inteligência de entender essa mudança, quase como uma virada do analógico para o digital, conseguiu montar times criativos diversificados para atender demandas menores em maior escala”, afirma.
Uma produtora que não quer prender o artista
É justamente nessa mudança que aparece o Sarça Connects. A proposta não é funcionar como uma representação exclusiva, na qual o profissional depende de uma única produtora para acessar projetos. O modelo permite que os artistas mantenham seus próprios contatos e continuem trabalhando com outras produtoras. A Sarça entra como mais uma possibilidade de conexão entre esses profissionais e determinados trabalhos. Para Rodrigo, essa liberdade é parte central da relação que a iniciativa pretende construir.
“O Sarça Connect existe pra dar liberdade ao artista de realizar seus projetos sem se sentir preso”, afirma Rodrigo. Segundo ele, o criativo pode trabalhar com outros profissionais e empresas e, ao mesmo tempo, ter uma estrutura que o apoie em projetos que façam sentido para seu perfil. A relação funciona, portanto, em duas direções: o profissional contribui para fortalecer a produtora, enquanto a produtora ajuda a colocar aquele profissional em contato com novas possibilidades. “Isso torna a parceria mais sincera, mais simples”, diz.
Créditos: Divulgação
Legenda: O Sarça Connects é uma iniciativa criada pela Sarça para conectar profissionais criativos a projetos sem exigir exclusividade
A escolha de quem participa de cada produção também não acontece apenas a partir do currículo. Segundo Rodrigo, o repertório e a identidade de cada profissional precisam conversar com a ideia que está sendo desenvolvida. Um filme de comédia pode pedir uma sensibilidade diferente de uma produção dramática, assim como campanhas de esporte, automóveis ou perfumes podem exigir linguagens específicas. A seleção, nesse caso, acontece a partir da combinação entre o projeto e aquilo que cada criativo sabe fazer. “Os profissionais acabam se encaixando pelo formato e pela ideia”, resume.
Essa estrutura também explica por que Rodrigo não aponta um único projeto como exemplo da colaboração entre profissionais independentes. Para ele, a formação de equipes diferentes já faz parte da rotina do audiovisual. A cada produção, novas combinações podem criar outras dinâmicas e acrescentar diferentes repertórios ao resultado final. “No geral, os projetos ganham identidade com a personalidade que cada criativo traz, seu repertório, seu olhar”, afirma. O trabalho passa a ser, em parte, uma sucessão de encontros entre pessoas que podem nunca ter formado a mesma equipe antes.
A criatividade nunca foi um trabalho solitário
Apesar de parecer uma novidade provocada pelas redes sociais e pela inteligência artificial, a colaboração não nasceu agora. Cinema, publicidade, moda e design sempre dependeram de profissionais diferentes trabalhando em torno de uma mesma ideia. O que mudou foi a escala e a velocidade com que essas conexões podem acontecer. Hoje, uma equipe pode ser formada entre pessoas que vivem em cidades diferentes, trabalham para empresas distintas e se encontram apenas durante o período de uma produção.
Para Rodrigo, o audiovisual é colaborativo por natureza. “Cinema nunca acontece com uma pessoa só tendo uma boa ideia, acontece quando muita gente acredita nessa ideia junto com quem a criou”, afirma. Segundo ele, cinema, publicidade e digital têm escalas e realidades diferentes, mas compartilham a necessidade de reunir profissionais em torno de uma proposta. “Mais que tendência, é necessidade pra executar bons trabalhos”, resume.
A mesma lógica pode ser observada fora do audiovisual. Na moda, uma campanha pode reunir fotógrafo, modelo, stylist, maquiador, diretor criativo e produtor em torno de uma única entrega. No design, profissionais independentes podem ser chamados para etapas específicas de um projeto. Na creator economy, marcas também trabalham com diferentes produtores de conteúdo conforme o público e a linguagem que desejam alcançar. A tecnologia não criou essa colaboração, mas tornou mais simples organizar equipes distribuídas e encontrar profissionais fora dos círculos tradicionais.
Isso muda também a ideia do que significa construir uma carreira criativa. Ter um bom trabalho para mostrar continua sendo importante, mas não necessariamente é suficiente para explicar como aquele profissional se encaixa em diferentes projetos. Repertório, capacidade de adaptação, comunicação e colaboração passam a aparecer ao lado da técnica. Em uma economia criativa cada vez mais pulverizada, a carreira pode ser construída por uma sequência de projetos, encontros e parcerias, e não apenas por uma posição fixa dentro de uma empresa.
O que vem depois do portfólio
Para quem está começando, Rodrigo não recomenda abandonar o portfólio para investir apenas em contatos. O conselho é justamente ampliar aquilo que o profissional entende como formação criativa. “Treinar criatividade”, afirma, significa estudar, pesquisar, buscar referências e viver experiências novas. Para ele, um criativo precisa prestar atenção ao que acontece ao redor para construir repertório. A carreira, nesse sentido, depende tanto do que se produz quanto daquilo que se observa.
A resiliência também aparece como parte desse processo. O mercado criativo é marcado por períodos de trabalho intenso, projetos repetitivos, mudanças de demanda e momentos de incerteza. Rodrigo resume seu conselho em uma palavra: resiliência. “Acreditar que a gente serve a uma ideia, a uma cultura, a uma comunidade”, diz. Para ele, são justamente as repetições e os dias menos interessantes que ajudam a construir os momentos que o profissional deseja viver.