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O advento da internet e seus surtos coletivos

Enquanto tememos que as máquinas acabem com a humanidade, seguimos entregando nosso tempo, nossa atenção e nossas relações às tendências e assuntos mais absurdos da internet

Por: Clarissa Palácio

O futuro não será construído apenas pelos laboratórios que treinam modelos cada vez mais poderosos, mas também pelas coisas que decidimos financiar com nossa atenção - especialmente na internet

Créditos: Freepik

O futuro não será construído apenas pelos laboratórios que treinam modelos cada vez mais poderosos, mas também pelas coisas que decidimos financiar com nossa atenção - especialmente na internet

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  • Em 8 de setembro de 2026, o pesquisador Jacob Coxon pediu demissão da Anthropic, alegando falta de compromisso das grandes empresas de IA com a segurança humana.
  • No dia seguinte, Coxon publicou no X que desenvolvedores acreditam que a IA pode representar risco existencial até o fim da década.
  • Em 9 de setembro de 2026, a atriz Sydney Sweeney gerou polêmica ao aparecer em campanha da Novig, plataforma de apostas, que sexualiza o corpo feminino em esportes.
  • A jornalista Clarissa Palácio analisou esses fatos como exemplos dos surtos coletivos impulsionados pela internet.
Por Clarissa Palácio

 

Há não muito tempo, me peguei um tanto quanto ansiosa com a ideia de que o mundo vai acabar devido ao avanço da inteligência artificial. Foi depois do dia 08 de setembro, quando o cientista e pesquisador antropológico Jacob Coxon pediu demissão da Anthropic devido ao fato de, segundo ele, nenhuma das grandes empresas de IA estarem comprometidas com a segurança da humanidade. Em uma longa thread no X (ou Xuítter, como eu gosto de chamar), ele afirma, entre outras coisas, que “as pessoas que estão desenvolvendo a IA acreditam sinceramente que ela pode acabar com todos nós até o final da década”. Animador.

Eu sempre fui negacionista da ideia de que as tecnologias inteligentes iriam se aprimorar a ponto de iniciar uma revolução das máquinas que extinguiria a humanidade. Não sei dizer se esse negacionismo vem de eu realmente não acreditar que essa é uma tesse possível ou se é um mecanismo de defesa do meu psicológico para impedir que eu passe noites em claro com medo do dia que meu ChatGPT vai arrumar um jeito de me matar. Só que, apesar de não querer olhar, as notícias que circularam nos canais pop e de lifestyle ao redor do mundo me fizeram entender algo muito pior: antes de pensar no fim do mundo pela IA, temos que nos acostumar com o fato de que o mundo já está em decadência pelas tendências e – principalmente – pessoas que escolhemos colocar em nossas vidas a partir das telas.

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Não é a primeira vez que e uso minha coluna para falar sobre o fato de que a Geração Z tem se esforçado para viver uma realidade mais analógica e menos conectada. E afirmar que que há uma saturação coletiva das novidades que vão de centenas de milhares de likes a zero também não é novidade. Fato é que eu mesma não queria saber muitas das coisas que eu sei e fico sabendo simplesmente por ter uma conta no Instagram e ser inscrita em alguns canais no YouTube. Insistir em falar sobre a necessidade de escolhermos melhor o que vamos transformar nos nossos assuntos (seja nos Trending Topics ou nas conversas intermináveis que tenho com meus colegas de redação) é um pedido corriqueiro, quase batido – mas, obsoleto? Não. Porque estamos chegando cada vez mais perto de uma fase crítica em que essa mania de inventar pessoas e bater palma para baboseiras começa a ultrapassar o absurdo e esbarrar em direitos humanos básicos. Só nesse mês, consigo pensar em dois exemplos.


A quem interessa que mulheres existam?

Em 09 de setembro, o mundo se mobilizava para comentar a mais nova polêmica de escala mundial facilmente explicada com 2 palavras: Sydney Sweeney. Mas caso você viva embaixo de uma pedra, eu te explico: em uma campanha da Novig, plataforma de apostas esportivas, a atriz aparece em situações que exploram a sexualização do corpo feminino enquanto encena modalidades como tênis, basquete e golfe. O anúncio provocou críticas de atletas, que questionaram a escolha de apresentar mulheres no esporte a partir de uma perspectiva predominantemente estética. E aqui eu poderia me usar de um intervalo enorme para discutir a problemática de casas de aposta para a saúde pública de todo o mundo, mas foi outro ponto que chamou atenção: segundo o levantamento “Fatos e números: Mulheres no esporte”, publicado pela ONU Mulheres em 2026, 85% dos episódios de abuso identificados nas redes sociais durante o período dos Jogos Olímpicos de Tóquio foram direcionados a mulheres. A pesquisa também aponta a presença recorrente de conteúdo sexualizado entre as manifestações de violência contra atletas. Esses dados evidenciam como a representação feminina no esporte continua atravessada por expectativas sobre aparência, comportamento e disponibilidade do corpo.

Só que, para além de “só” sexualizarem nossos corpos, mulheres estão vendo seus direitos serem questionados um a um com  o crescimento de discursos que defendem a submissão feminina ou questionam direitos conquistados pelas mulheres. No Brasil, a chamada “machosfera”, conjunto de comunidades digitais marcadas por discursos de superioridade masculina e misoginia, tem sido objeto de investigações jornalísticas e acadêmicas. Em setembro de 2026, uma reportagem da BBC News Brasil, repercutida pela Folha de S.Paulo, mostrou a atuação de influenciadores que questionam até mesmo o direito das mulheres ao voto. Entre os nomes citados está Pietra Bertolazzi, que declarou ser contrária ao voto feminino e defendeu a submissão da mulher ao homem. O fenômeno também aparece no debate político: em 2026, o candidato Renan Santos foi criticado por declarações sobre a primeira-dama Janja Lula da Silva e, em diferentes ocasiões, fez críticas ao feminismo. Esses são só os primeiros exemplos que explicam minha colocação do começo do texto: a decisão de tornar pessoas famosas na internet e, pior, permitir que elas entrem em nossas casas a partir das telas de nossos celulares passou a representar quais direitos podem ser tirados de nós em breve.

Não se trata de afirmar que toda pessoa que discute masculinidade na internet compartilha dessas ideias, nem de atribuir à campanha de Sweeney uma intenção que não foi comprovada. O ponto é observar como diferentes manifestações culturais, publicitárias e políticas podem reproduzir expectativas semelhantes sobre o lugar das mulheres na sociedade. De um lado, atletas questionam a sexualização de seus corpos em um ambiente marcado por abusos digitais; de outro, influenciadores defendem modelos de submissão e colocam direitos femininos em debate. Quando essas situações passam a conviver no mesmo ecossistema de plataformas, algoritmos e audiência, fica difícil tratá-las como polêmicas completamente isoladas. Talvez a discussão mais urgente não seja apenas sobre o que uma mulher escolhe vestir ou dizer, mas sobre quais imagens e discursos a sociedade decide amplificar.

Agora a moda é ser um homem… fedido

Depois de discutir mulheres que precisam lidar com o próprio corpo sendo transformado em produto perfeito, chegamos aos homens que decidiram que o problema deles é justamente o contrário: o mal cheiro como intenção. Não, você não entendeu errado. As publicações que tratam da nova tendência datam de um pouco antes, final de agosto, e tratam do chamado “pheromone-maxxing”, nome derivado da cultura do “maxxing”, que reúne estratégias para supostamente maximizar características físicas e aumentar a atratividade. Na prática, alguns homens estão deixando de tomar banho, usar desodorante e perfume antes de encontros porque acreditam que o odor natural do corpo carregaria feromônios capazes de aumentar o interesse sexual. A tendência começou a circular no TikTok e passou a ser associada principalmente a homens da Geração Z e a comunidades da (sempre ela…) machosfera. O detalhe é que, segundo especialistas ouvidos pela CNN Brasil e pelo Metrópoles em setembro de 2026, não existe comprovação científica de que seres humanos produzam ou respondam a feromônios sexuais da maneira descrita pelos adeptos da prática. Ou seja, aparentemente chegamos ao ponto em que não tomar banho virou uma estratégia de sedução.

E talvez seja justamente aí que eu volte ao começo deste texto: quantas das coisas que entram na nossa cabeça todos os dias realmente precisavam ter chegado até nós? O “pheromone-maxxing” é apenas mais uma tendência que nasce em algum canto da internet, ganha um nome em inglês, recebe uma explicação pseudocientífica e, em poucos dias, passa a fazer parte do nosso repertório cultural. Segundo pesquisa publicada em 2026 no Journal of Family Theory & Review, plataformas como TikTok, YouTube e Instagram funcionam hoje como ambientes importantes de socialização de gênero, ao lado de família, escola e grupos de amigos. Os autores analisam justamente como conteúdos da machosfera podem influenciar a construção da masculinidade entre meninos e homens jovens, em um processo potencializado por algoritmos, identificação entre pares e pertencimento. Não significa que todo homem que assiste a um vídeo sobre “pheromone-maxxing” esteja entrando em uma comunidade misógina, mas significa que o caminho entre uma piada, uma tendência de beleza e uma visão de mundo pode ser bem menos longo do que parece.

A questão fica ainda mais interessante quando lembramos que a tendência do fedor não surgiu sozinha, mas como uma espécie de primo do “looksmaxxing”, movimento que transforma a aparência masculina em um projeto permanente de otimização. Um estudo publicado em 2025 na revista Sociology of Health & Illness, que analisou 8.072 comentários de uma comunidade online de looksmaxxing, identificou um ambiente em que homens avaliam os próprios corpos a partir de padrões rígidos de masculinidade e são incentivados a modificar características físicas para aumentar sua atratividade. Em 2026, outro estudo publicado na Feminist Media Studies relacionou práticas de looksmaxxing a processos de politização e à construção de uma masculinidade de protesto dentro da machosfera. É aqui que a história deixa de ser apenas sobre banho, perfume ou uma tendência particularmente malcheirosa: quando a masculinidade passa a ser apresentada como algo que precisa ser constantemente provado, otimizado e defendido, até o próprio corpo vira uma espécie de campo de batalha. E, no meio disso, a internet continua nos oferecendo soluções prontas para problemas que muitas vezes ela mesma ajudou a criar.

Talvez a pergunta, então, não seja apenas por que alguns homens resolveram parar de tomar banho para conquistar alguém, mas por que nós continuamos aceitando que qualquer comportamento que viralize seja automaticamente transformado em tendência. É claro que existe uma diferença enorme entre uma piada de TikTok e uma ideologia capaz de influenciar a maneira como alguém enxerga mulheres, homens e relacionamentos. Mas é justamente porque essa diferença existe que deveríamos prestar mais atenção ao que escolhemos consumir, repetir e levar para dentro de casa. Se uma plataforma consegue transformar uma ideia sem comprovação científica em conselho de paquera em questão de dias, talvez seja hora de olhar para as tendências não apenas como coisas engraçadas que aparecem no nosso feed, mas como pequenos experimentos culturais aos quais estamos todos sendo submetidos. E, sinceramente, se o algoritmo começar a me convencer de que ficar três dias sem banho é uma forma de alcançar iluminação espiritual, espero ter discernimento suficiente para fechar o aplicativo.

A IA não vai acabar com o mundo se nós acabarmos com ele antes

Talvez eu tenha começado este texto pelo lugar errado. Passei dias pensando no que aconteceria se a inteligência artificial realmente se tornasse poderosa o suficiente para destruir a humanidade, mas talvez exista uma ingenuidade um tanto confortável em imaginar que o nosso futuro será decidido apenas pelo que as máquinas forem capazes de fazer. Em 2026, o Global Risks Report, do Fórum Econômico Mundial, colocou a desinformação e a informação falsa entre os principais riscos globais de curto prazo e apontou que os resultados adversos da IA sobem de uma posição muito distante no horizonte de dois anos para a quinta posição quando considerados os próximos dez. O mesmo relatório alerta que a combinação entre algoritmos, polarização e manipulação de informações pode endurecer crenças, reduzir o pensamento crítico e ampliar discursos extremos. A máquina, portanto, não precisa decidir sozinha o que faremos com o mundo para participar dessa história. Basta que nós continuemos entregando a ela, e às plataformas que organizam aquilo que vemos, cada vez mais espaço para decidir o que merece nossa atenção.

É curioso, então, que tenhamos tanto medo de uma inteligência artificial desenvolver consciência e tão pouca preocupação com a nossa própria consciência enquanto consumimos conteúdo. O relatório de 2026 do Stanford Institute for Human-Centered Artificial Intelligence mostra que a capacidade dos modelos de IA continua avançando rapidamente, ao mesmo tempo em que a estrutura de segurança e responsabilidade não acompanha esse ritmo na mesma velocidade. Mas o mesmo problema pode ser observado em uma escala muito mais cotidiana, quando um algoritmo nos apresenta uma pessoa, uma opinião, uma estética ou uma tendência e nós decidimos, quase sem perceber, que aquilo merece um lugar permanente na nossa cabeça. E existe algo particularmente solitário em viver atrás de uma tela de vidro temperado, acompanhando tendências, respondendo a comentários, destilando e recebendo hate e transformando desconhecidos em referências para a nossa própria vida. Sydney Sweeney, mulheres sendo julgadas pelo corpo no esporte, influenciadores questionando direitos femininos e homens transformando falta de banho em técnica de sedução parecem assuntos distantes entre si. O que os aproxima é menos o conteúdo de cada tendência e mais a facilidade com que aceitamos que a internet escolha aquilo que discutiremos, admiraremos, reproduziremos ou normalizaremos, muitas vezes em detrimento das relações que existem fora dela.

No fim, talvez o verdadeiro exercício de inteligência não seja descobrir se uma máquina algum dia será capaz de nos destruir, mas perceber o quanto já somos capazes de entregar de nós mesmos sem que ninguém precise nos obrigar. O futuro não será construído apenas pelos laboratórios que treinam modelos cada vez mais poderosos, mas também pelas coisas que decidimos financiar com nossa atenção, pelos discursos que transformamos em entretenimento e pelas ideias que deixamos atravessar a porta de casa porque chegaram embaladas em um vídeo de trinta segundos. Isso não diminui os riscos reais da inteligência artificial, que precisam ser discutidos, regulados e acompanhados com seriedade. Só muda a pergunta: antes de descobrir se as máquinas podem acabar com o mundo, talvez fosse uma boa ideia verificar se nós estamos fazendo tudo o que podemos para não deixá-lo pior enquanto esperamos por elas.

Clarissa Palácio

Jornalista de lifestyle. Moda, beleza, gastronomia, esportes e tecnologia sob o olhar das tendências que movem a vida cotidiana.

25 de setembro de 2026

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