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Autor contra a máquina: por que Kojima não quer abrir mão do controle criativo

A declaração do criador de Metal Gear no retorno do podcast Koji10 reabre a discussão sobre quem decide o que uma obra deve ser

Por: Tiago Souza

Créditos: Divulgação

Até onde estamos dispostos a abrir mão da intenção de quem cria em troca da conveniência de quem consome

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  • Hideo Kojima, criador de *Metal Gear Solid* e *Death Stranding*, declarou que não abrirá mão do controle criativo de seus jogos.
  • A fala ocorreu no retorno do podcast Koji10, após um ano fora do ar.
  • O comentário foi feito em meio à polêmica sobre o DLSS 5 da Nvidia, tecnologia de IA que afeta *Death Stranding 2*.
  • Kojima afirmou que, apesar de reconhecer a IA, rejeita que ela substitua a assinatura autoral dos desenvolvedores.
Por Tiago Souza

 

Hideo Kojima é um dos poucos nomes dos games que dispensam apresentação. Criador de Metal Gear Solid e Death Stranding, ele construiu uma carreira inteira sobre a ideia de que o videogame é, antes de tudo, uma forma de expressão autoral. Um território onde a assinatura de quem cria importa tanto quanto a tecnologia que o torna possível. Por isso, quando ele abre a boca sobre inteligência artificial, a indústria inteira presta atenção.

Foi o que aconteceu no retorno do podcast Koji10, após um ano fora do ar. Em meio à polêmica em torno do DLSS 5, da Nvidia — tecnologia de upscaling por IA que acabou arrastando Death Stranding 2 para o centro do debate —, Kojima fez uma declaração que resume, em poucas linhas, o dilema que atravessa toda a criação artística na era das máquinas.

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A linha que ele não quer cruzar

Kojima não é um negacionista. Ele reconhece que a IA é útil para tarefas mecânicas — restaurar fotografias antigas, colorizar imagens, recuperar filmes em alta resolução. O problema, para ele, começa exatamente onde a máquina deixa de ser ferramenta e passa a ser autora.

“Como a pessoa que fez o original, eu não gostaria que alguém mudasse demais. Havia um motivo para eu ter escolhido determinado esquema de iluminação. Seria diferente se a IA entendesse essas intenções.”

É um argumento sutil e, por isso mesmo, poderoso. Kojima não está dizendo que a IA é incapaz de produzir algo bonito. Está dizendo que ela é incapaz de entender o porquê de uma decisão. E que, sem esse entendimento, qualquer alteração é uma traição à intenção original. Quando sugeriram que a IA poderia fazer mudanças por conta própria, ele foi direto:

“Eu não gostaria disso. A menos que eu estivesse controlando a IA no meu próprio trabalho. Aí pode ser diferente. Mas não sei.”

Essa hesitação final é o ponto mais interessante de toda a fala. Kojima não está fingindo que as ferramentas vão desaparecer. Está apenas recusando ser governado por elas.

A inevitabilidade que ele mesmo reconhece

O que torna a posição de Kojima tão rara — e honesta — é que ele não se esconde atrás de um “nunca”. Ele admite que a IA provavelmente vai se tornar padrão na indústria, em alguma medida. Chega até a especular sobre um futuro distante em que a restauração de músicas e filmes seja feita de forma praticamente automática, com resoluções cada vez maiores.

“Talvez a IA acabe fazendo tudo isso automaticamente. Daqui a cem anos, a resolução pode ser ainda maior. Mas eu não gosto muito da ideia.”

É a combinação rara de desgosto pessoal com a aceitação da inevitabilidade. Kojima não finge que a tecnologia vai sumir, nem finge que ela pode fazer o trabalho dele. Ele simplesmente aposta que o público é capaz de sentir a diferença e que a intenção de um autor é, por si só, um valor de mercado.

E aqui mora a ironia que atravessa toda a sua carreira: o mesmo homem que passou décadas subvertendo as convenções da indústria, que construiu sua reputação sobre a experimentação e o controle total da obra, agora se posiciona como o guardião de um território que a indústria parece disposta a automatizar. O autor que sempre foi a exceção agora se torna, de certa forma, a resistência.

O que isso diz sobre nós

A discussão vai muito além dos games. Kojima está, no fundo, falando sobre o valor da assinatura humana num mundo de criação automatizada. Quando a ferramenta gera por você, o que sobra do autor? Quando qualquer pessoa pode produzir uma imagem, uma música ou um texto em segundos, o que ainda distingue a criação de quem imprime?

A resposta de Kojima é um lembrete incômodo: a tecnologia pode otimizar o processo, mas não pode substituir a intenção de quem concebeu a obra. A iluminação que ele escolheu, o ritmo que ele decidiu, o silêncio que ele deixou. Tudo isso é linguagem. E linguagem, por enquanto, ainda é coisa de gente.

Pra fechar!

Vivemos uma era em que a criação se tornou mais acessível do que nunca e, paradoxalmente, mais fácil de ser delegada. A IA promete eliminar o esforço, o erro e a demora. Mas talvez seja justamente no esforço, no erro e na demora que mora aquilo que chamamos de autoria.

A provocação da semana é: se a máquina pode gerar em segundos o que um artista levaria meses para conceber, o que estamos realmente valorizando quando consumimos uma obra: o resultado ou a jornada humana que o tornou possível? Até onde estamos dispostos a abrir mão da intenção de quem cria em troca da conveniência de quem consome?

Tiago Souza

Jornalista e pesquisador com mais de 20 anos dedicados ao universo das HQs, livros, séries e filmes. Escreve a coluna PopTec. Porque o pop não vive sem tec. E tec é o que há de mais pop em um país em que existem mais smartphones do que pessoas.

8 de outubro de 2026

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