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O hospital do seu pet pode ter tecnologias que ainda não são comuns na medicina humana

De tomografia e monitoramento intensivo a inteligência artificial, telemedicina e análise de dados, a tecnologia está mudando a estrutura da saúde veterinária e aproximando hospitais pet de centros médicos de alta complexidade

Por: Clarissa Palácio

Inovações do mercado pet permitem cuidar do seu animal de estimação com mais tecnologia e menor preço

Créditos: Freepik

Inovações do mercado pet permitem cuidar do seu animal de estimação com mais tecnologia e menor preço

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  • +Pet oferece modelo “One Stop Shop” que integra clínica, hospital, diagnóstico e plano de saúde desde 2020/2021.
  • Os hospitais da +Pet contam com centro cirúrgico, UTI, internação humanizada, laboratório e exames avançados como tomografia.
  • Equipamentos veterinários são adaptados de tecnologias da medicina humana, segundo o diretor João Marcos Rios.
  • O mercado pet brasileiro faturou R$ 75,4 bilhões em 2024, alta de 9,6 % em relação ao ano anterior, segundo a Abempet.

Quem entra em um hospital veterinário de alta complexidade pode encontrar uma estrutura que, à primeira vista, parece familiar. Há centro cirúrgico, unidade de terapia intensiva, laboratório, exames de imagem, internação e equipamentos para monitorar pacientes em diferentes condições. A diferença está no tamanho de quem ocupa os leitos, mas não necessariamente na sofisticação da tecnologia utilizada para cuidar deles. Na +Pet, esse modelo reúne atendimento clínico, hospitalar, diagnóstico e plano de saúde em uma mesma operação.

A transformação, porém, vai além dos equipamentos. A medicina veterinária também começa a incorporar inteligência artificial, telemedicina, prontuários digitais e análise de dados para organizar a jornada de um animal desde a prevenção até atendimentos de maior complexidade. Na +Pet, a tecnologia aparece tanto na operação dos hospitais quanto nos processos que acontecem antes e depois da consulta. O resultado é um ecossistema em que diferentes etapas do cuidado passam a conversar entre si.

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Esse movimento ocorre em um mercado que ganhou escala nos últimos anos. Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação, a Abempet, o mercado pet brasileiro faturou R$ 75,4 bilhões em 2024, alta de 9,6% em relação ao ano anterior. Dentro desse total, os serviços veterinários responderam por R$ 7,7 bilhões. Com mais dinheiro circulando no setor e animais vivendo mais, a infraestrutura necessária para acompanhar doenças, cirurgias e tratamentos também começa a mudar.

O hospital que parece humano

A estrutura física é o primeiro sinal dessa transformação. A +Pet informa que seus hospitais contam com centro cirúrgico, UTI, internação humanizada, laboratório clínico, ultrassom, raio X e tomografia computadorizada. A companhia também mantém ambientes separados para cães e gatos e áreas de isolamento para pacientes com doenças infecciosas. João Marcos Rios, sócio e diretor de expansão da +Pet, explica que parte dos equipamentos utilizados na veterinária é adaptada de tecnologias já conhecidas na medicina humana.

“Algumas coisas a gente traz da humana. Algumas coisas a gente consegue trazer da medicina veterinária, que já são próprias da medicina veterinária”, afirma Rios. Segundo ele, a diferença também aparece na adaptação dos equipamentos ao porte dos pacientes. Na unidade visitada, por exemplo, a tomografia é semelhante à utilizada em hospitais humanos, mas conta com software específico para cães e gatos. A companhia afirma ter sete tomógrafos distribuídos em diferentes unidades.

O paralelo fica ainda mais evidente quando o assunto é terapia intensiva. Rios compara determinados procedimentos veterinários ao atendimento neonatal humano, já que cães e gatos podem ter dimensões muito menores que as de um paciente adulto. Segundo ele, monitores multiparamétricos com capnografia e equipamentos de ventilação mecânica são utilizados para acompanhar esses animais. A empresa também relata o uso de tecnologias para monitoramento cardiovascular em pacientes internados em estado grave. “É complexo, né?”, diz Rios ao descrever a análise de contratilidade cardíaca utilizada para avaliar a resposta do paciente aos medicamentos.

Há ainda tecnologias que, segundo o executivo, já existem na medicina humana, mas ainda não são comuns em hospitais veterinários. Um exemplo é o arco cirúrgico, equipamento de imagem que permite acompanhar em tempo real determinadas etapas de uma cirurgia ortopédica. Na prática, a tecnologia permite ao cirurgião visualizar a posição de estruturas e instrumentos durante o procedimento, sem precisar interromper a operação para realizar uma nova imagem convencional.

Da clínica ao ecossistema tecnológico

A tecnologia também aparece na forma como o atendimento é organizado. Desde a criação da empresa, por volta de 2020 e 2021, a +Pet adotou o modelo que Rios chama de “One Stop Shop”, reunindo plano de saúde, clínica, hospital e outros serviços em uma mesma operação. O objetivo é que o animal possa passar por diferentes etapas do cuidado dentro da mesma estrutura. “Tudo num lugar só. Desde o começo da vida do paciente, né? Do cachorrinho, do gatinho”, afirma.

Esse modelo cria uma diferença importante para o uso dos dados. Em vez de cada consulta, exame ou procedimento gerar uma informação isolada, o histórico do animal pode acompanhar sua trajetória dentro da rede. Rios afirma que a empresa consegue consultar informações de pacientes que estão no sistema há anos, incluindo alergias, cirurgias anteriores, locais onde foram atendidos e vacinações. “Hoje em dia, a gente consegue perguntar por áudio para a inteligência artificial”, afirma o executivo, que diz que o sistema retorna essas informações a partir do histórico disponível.

Créditos: Divulgação

Legenda: João Marcos Rios, sócio e diretor de expansão da +Pet

Na prática, isso aproxima o prontuário veterinário de uma lógica que já faz parte da transformação digital da saúde humana. A informação deixa de estar apenas em uma ficha física e passa a ser utilizada como uma camada de apoio à decisão. Para o veterinário, isso significa reduzir o tempo gasto procurando informações espalhadas e ampliar a quantidade de dados disponíveis antes de uma conduta. Para o animal, a consequência potencial é ter um atendimento que considera não apenas o problema atual, mas também o que aconteceu anteriormente.

A própria estrutura física é pensada para distribuir essa jornada. Segundo Rios, hospitais maiores concentram os procedimentos de maior complexidade, enquanto clínicas avançadas podem atender demandas cotidianas e encaminhar casos mais complexos para essas unidades. A empresa descreve atualmente esse modelo como uma rede integrada entre hospitais, clínicas, laboratórios, telemedicina e planos de saúde. A tecnologia, nesse caso, não está apenas dentro de uma máquina, mas na conexão entre diferentes pontos do atendimento.

Quando a IA deixa de ser promessa

Um dos usos mais concretos de inteligência artificial na operação está antes mesmo de o animal entrar no hospital. A +Pet desenvolveu uma ferramenta própria para automatizar parte da análise de entrada de animais nos planos de saúde. Segundo informações divulgadas pela companhia, o processo que podia levar até cinco horas passou a ser realizado em cerca de dois minutos. A ferramenta cruza informações declaradas pelo responsável, como idade, vacinação, alimentação e sintomas, com uma base técnica veterinária e histórico de casos.

Rios explica que a lógica da empresa é automatizar tarefas que podem ser ensinadas a um sistema e deixar a tomada de decisão médica sob responsabilidade dos profissionais. “Tudo o que a gente consegue hoje ensinar uma inteligência artificial a executar, e seja uma execução que é mais simples, vamos dizer, que ela não seja uma coisa de raciocinar e tomar uma decisão, a gente vai automatizar”, afirma. Para ele, a tecnologia funciona principalmente como uma camada de apoio ao trabalho humano. “A tomada de decisão médica, por exemplo, essa tomada de decisão continua sendo médica”, completa.

Esse limite é importante porque ajuda a separar automação de diagnóstico. A inteligência artificial pode organizar informações, identificar padrões e acelerar tarefas repetitivas, mas a interpretação clínica continua associada ao profissional responsável. Na +Pet, segundo Rios, o sistema também pode facilitar o acesso a dados que antes exigiam a consulta manual de fichas e históricos. “A gente tem um apoio desses dados mais facilitados”, diz.

A diferença entre uma IA que automatiza uma etapa e uma IA que toma decisões clínicas também aparece no próprio desenho da ferramenta. Informações divulgadas pela +Pet indicam que o sistema classifica riscos clínicos e financeiros e pode encaminhar determinados casos para análise complementar. Isso coloca a inteligência artificial menos como substituta do veterinário e mais como uma infraestrutura de processamento de informações. É uma mudança menos chamativa do que um diagnóstico feito por uma máquina, mas que pode alterar a velocidade de operação de uma rede de saúde.

Créditos: Divulgação

Legenda: Algumas das máquinas presentes na +Pet

O veterinário cabe numa tela?

A mesma lógica aparece na telemedicina. A +Pet oferece atendimento remoto aos clientes de seus planos e afirma que o serviço funciona 24 horas por dia, sete dias por semana. Segundo a companhia, mais de 85% dos atendimentos têm resolutividade remota, ou seja, são solucionados sem a necessidade de encaminhamento para uma consulta presencial. Esse índice é um dado fornecido pela própria empresa e não deve ser confundido com uma taxa independente de eficácia da modalidade.

Na entrevista, Rios explica que a telemedicina também tem uma função operacional. “Ela desafoga um pouco o hospital quando ele já tá cheio e traz essa comodidade também para o cliente”, afirma. Em cidades grandes, ele cita o tempo de deslocamento como um dos motivos pelos quais uma orientação remota pode fazer diferença. “Às vezes um direcionamento de telemedicina já consegue resolver”, diz.

Há, porém, uma fronteira regulatória para esse tipo de atendimento. O Conselho Federal de Medicina Veterinária regulamentou a telemedicina veterinária em 2022 e estabeleceu diferentes modalidades, entre elas teleconsulta, teletriagem, teleorientação, telemonitoramento, teleinterconsulta e telediagnóstico. A resolução determina que o atendimento presencial é o padrão para os atos médico-veterinários e estabelece que teleconsultas não são permitidas em situações de urgência ou emergência.

Isso significa que a tela não substitui o hospital em todos os cenários. Ela pode funcionar como porta de entrada, acompanhamento ou orientação, enquanto situações que exigem exame físico, procedimentos ou atendimento imediato precisam continuar no ambiente presencial. A própria +Pet informa que a plataforma pode recomendar atendimento presencial quando necessário. A tecnologia, nesse caso, reorganiza o caminho até o veterinário em vez de eliminar a necessidade dele.

Seu pet também está entrando na era dos dados

A parte mais promissora dessa transformação talvez esteja menos na máquina e mais na capacidade de usar os dados acumulados ao longo do tempo. Rios afirma que a +Pet já utiliza informações da base para orientar vacinação e recomendar check-ups de acordo com características e predisposições dos animais. Um bulldog, por exemplo, pode receber orientações específicas considerando a maior incidência de determinados problemas de pele e respiratórios na raça. “A gente orienta esses check-ups de acordo com o que a gente tem de dados dentro da nossa base de dados”, afirma.

Isso, porém, ainda não significa que a empresa consiga prever exatamente qual doença um animal terá ou quando ela aparecerá. O próprio Rios faz essa ressalva ao explicar que não é possível realizar uma previsão assertiva de doenças. O que existe, segundo ele, é a identificação de predisposições e a possibilidade de usar essas informações para recomendar acompanhamento preventivo. A distinção é importante porque transforma o conceito de medicina preditiva em algo mais concreto: não se trata de adivinhar o futuro, mas de reconhecer padrões que podem orientar decisões antes que um problema se agrave.

Essa utilização de dados também muda o papel do histórico clínico. Vacinas, exames, cirurgias, alergias e atendimentos anteriores podem deixar de ser informações consultadas apenas quando surge uma dúvida e passar a alimentar sistemas de acompanhamento. Rios resume essa mudança ao comparar o cenário atual com o período em que se falava de Big Data sem necessariamente conseguir transformar grandes bases em decisões. “Hoje em dia você consegue trabalhar esses dados e tomar essas decisões”, afirma.

O passo seguinte é fazer esses dados circularem de maneira segura entre diferentes profissionais e modalidades de atendimento. A regulamentação do CFMV determina que informações produzidas em atendimentos por telemedicina sejam registradas em prontuário e estabelece requisitos de segurança, integridade, sigilo e fidelidade dos dados. Quanto mais a saúde veterinária se digitaliza, portanto, mais o prontuário deixa de ser apenas um arquivo e passa a funcionar como infraestrutura para o cuidado.

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Legenda: A fachada da unidade da Berrini da +Pet

Até onde a tecnologia pode chegar?

Para Rios, a tecnologia não deveria ser apresentada ao responsável pelo animal como uma substituta do veterinário. “A gente mostra essa parte de tecnologia como um aliado da tomada de decisão do médico”, afirma. Ele cita o próprio aparelho de anestesia como exemplo: sensores e recursos de monitoramento podem ajudar a acompanhar o paciente durante o procedimento, mas a decisão sobre anestésico e profundidade da anestesia continua sendo do profissional. “Quem vai tomar essa decisão baseado em dados é o médico”, resume.

Um exemplo é a análise bispectral mencionada pelo executivo. Segundo Rios, o recurso é utilizado para avaliar o nível de consciência do paciente durante procedimentos e ajudar o veterinário a definir a profundidade da anestesia. A tecnologia, nesse caso, não escolhe sozinha a conduta, mas oferece informações adicionais para a decisão clínica. O objetivo, de acordo com o executivo, é utilizar a quantidade necessária de anestésico e proporcionar uma recuperação pós-cirúrgica com menor exposição aos medicamentos.

O mesmo princípio aparece quando se olha para a inteligência artificial. Automatizar uma análise que demorava horas pode liberar profissionais para atividades que exigem julgamento, enquanto reunir o histórico do paciente pode diminuir o tempo gasto procurando informações. Em ambos os casos, a tecnologia atua sobre o processo de trabalho, e não apenas sobre a experiência do responsável que leva o animal ao hospital. Essa distinção ajuda a entender por que a transformação da medicina veterinária pode acontecer mesmo quando não há uma máquina fazendo um diagnóstico sozinha.

O movimento também está ligado à expansão do próprio mercado. Rios afirma que há grupos estrangeiros e brasileiros investindo na saúde veterinária e que equipamentos que antes eram difíceis de encontrar passaram a ser mais acessíveis ao setor. “Então, cada vez mais, essa é a parte boa do capitalismo, né? Ela traz velocidade para as tecnologias que a gente tem e mais acessibilidade”, afirma. A tendência indicada pelo executivo é que recursos hoje restritos a determinados centros se tornem progressivamente mais comuns, enquanto a combinação entre infraestrutura, dados, automação e atendimento remoto passa a fazer parte da rotina de mais hospitais veterinários.

Clarissa Palácio

Jornalista de lifestyle. Moda, beleza, gastronomia, esportes e tecnologia sob o olhar das tendências que movem a vida cotidiana.

22 de setembro de 2026

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