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Entre a vitrine e o museu, a moda busca seu lugar nas artes
A fronteira entre moda, arte e produto fica cada vez mais difícil de definir à medida que novas tecnologias ampliam o campo da criação
Créditos: Divulgação/Pinterest
A capa da pesquisa Pinterest Predicts 2026
Pode ser que inda haja quem acredite na ideia de que tendências nascem de uma intuição coletiva, quase como um estalo cultural. Não é verdade. Aquilo que antes parecia surgir de forma orgânica, como se estilos, desejos e hábitos simplesmente “pegassem”, é cada vez mais resultado de observações sistemática, análise de dados e projeções precisas. A sensação de que o novo já vem com roteiro definido não é apenas percepção. O que se deseja amanhã já está sendo rastreado hoje — e, muitas vezes, validado antes de existir.
Esse movimento vai muito além da moda. Ele atravessa estética visual, consumo de conteúdo, viagens, alimentação, beleza e o lifestyle como um todo. Plataformas como o Pinterest e consultorias globais como a WGSN tornaram-se centrais nesse ecossistema, não por criarem tendências do zero, mas por transformarem sinais dispersos — buscas, cliques, salvamentos, padrões culturais — em previsões que orientam decisões industriais.
O efeito colateral é curioso: o desejo, seja por uma cor, um efeito ou uma atmosfera, muitas vezes já está “decidido” antes de o produto chegar à prateleira. O novo parece inevitável. A questão que se impõe é menos estética e mais filosófica: até onde nossas escolhas são espontâneas — e até onde já foram antecipadas?
Tendências não surgem; elas são identificadas. Uma das vitrines mais visíveis desse processo é o Pinterest Predicts, relatório anual que analisa padrões de busca e comportamento para identificar sinais culturais emergentes antes de eles se tornarem “mainstream”. A própria plataforma destaca uma taxa de acerto elevada: cerca de 88% das previsões acabam se confirmando nos meses seguintes.
No relatório voltado para 2026, o Pinterest agrupou movimentos que apontam para transformações estéticas e simbólicas mais amplas: do poetcore, com referências literárias e interiores contemplativos, ao maximalismo nostálgico e a estéticas especulativas, como o alien core. São narrativas visuais que ainda estão em formação, mas já aparecem com força nos dados.
Na prática, isso se traduz em micro comportamentos muito concretos: aumento nas buscas por “azul gelo”, retorno dos broches ao vestuário cotidiano, maquiagem e decoração com referências glaciais. Sinais que, décadas atrás, talvez surgissem primeiro nas passarelas agora nascem nos mecanismos de busca.
A WGSN, por sua vez, opera em outra camada. Mais do que observar o que está sendo procurado, a consultoria cruza dados quantitativos e qualitativos, indicadores socioeconômicos, tecnologia e cultura para projetar movimentos de médio e longo prazo. Não se trata de prever modismos, mas forças. Uma tendência é algo que já existe — só ainda não ganhou volume. Ela está lá, em baixa intensidade, esperando dois ou três anos para se tornar visível.
Relatórios de tendências deixaram de ser inspiração para virar ativo estratégico. Pinterest Predicts, WGSN e estudos similares são consumidos por marcas, agências e times de produto como ferramentas de decisão. Eles orientam o que desenvolver, como comunicar e quando lançar.

Créditos: Divulgação/WGSN
Legenda: De comportamento do consumidor à cor da temporada, a WGSN afirma saber quais serão as tendências até 2032
Nesse cenário, previsões viram commodities. São compradas, licenciadas e internalizadas por empresas que sabem que antecipar desejos significa ganhar tempo — e vantagem competitiva — em um mercado saturado de estímulos. Para uma marca de beleza, por exemplo, identificar o crescimento do interesse por scent stacking (a técnica de dois ou mais perfumes para criar uma fragrância única e personalizada) pode significar lançar produtos e narrativas antes que o comportamento seja amplamente reconhecido. Não se trata de seguir a tendência, mas de chegar antes dela.
O impacto desse sistema não fica restrito às apresentações corporativas. À medida que grandes marcas traduzem previsões em coleções, campanhas e embalagens, o consumidor passa a encontrar o “novo” já legitimado. O produto chega com aparência de escolha óbvia — porque os sinais foram observados, filtrados e amplificados muito antes.
No lifestyle contemporâneo, isso aparece tanto no concreto quanto no abstrato: roupas, objetos, casas, mas também desejos difusos por conforto emocional, pertencimento ou desaceleração. O que começa como dado termina como experiência.
Diante desse cenário, a pergunta inevitável permanece: estamos escolhendo ou apenas seguindo um roteiro bem escrito? A mesma tecnologia que amplia repertórios também orienta o olhar. Entre descoberta e influência, existe um território ambíguo — e cada vez mais sofisticado.
Especialistas costumam lembrar que previsões não determinam comportamentos; elas oferecem mapas. Reduzem incertezas, mas não anulam o inesperado. Ainda há espaço para desvios, rupturas e movimentos contraculturais. A diferença é que, hoje, até o imprevisto está sendo observado.
Mas, apesar do poder crescente das previsões, o imprevisível continua existindo. Tendências não são certezas, mas hipóteses bem fundamentadas que funcionam como bússolas que orientam decisões, não como destinos fixos. Segundo análises da WGSN publicadas em 2025, o papel das tendências é reduzir riscos, não eliminar a criatividade ou o acaso. O inesperado segue sendo parte essencial da cultura, da inovação e, sobretudo, da experiência humana.
Jornalista de lifestyle. Moda, beleza, gastronomia, esportes e tecnologia sob o olhar das tendências que movem a vida cotidiana.
23 de janeiro de 2026LifesTec
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