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Créditos: Reprodução
Reconstruir o passado para o grande público, como fez Kleber Mendonça Filho no multipremiado "O Agente Secreto", passa por riscos criativos e morais: até onde a IA pode interferir?
A essa altura, já não deve ser novidade pra mais ninguém que a reconstrução do passado está na moda. Pra se dar conta disso, basta observar os grandes sucessos do cinema brasileiro nos últimos anos: Ainda Estou Aqui, de 2024, e O Agente Secreto, de 2025 (ambos to-tal-men-te premiados, vale ressaltar), se baseiam em acontecimentos, reais ou fictícios, das décadas de 60 a quase 80. E não só o Brasil pode ser usado de exemplo: “Hamnet: A Vida Antes de Hamlet“, “Marty Supreme“, “Pecadores“, “Sonhos de Trem“… – e repare que esses são só lançados no último ano e que vão concorrer ao Oscar de melhor filme em 2026; se parar para olhar outros filmes que saem esse ano ou que saíram recentemente, é fácil perceber que boa parte do cinema mundial está engajado em contar histórias do passado.
Essa tendência se encaixa em um paradoxo curioso: tecnologias cada vez mais avançadas, como a inteligência artificial, sendo usadas para retratar um passado onde não existia quase tecnologia nenhuma. E contar com esse auxílio, ainda que muito benéfico para manter o passado vivo no imaginário coletivo, corre o risco de acabar reinterpretando o que foi de uma forma, não só diferente, mas romantizada – o que é perigoso. Em paralelo, é impossível pensar em produção de narrativas, quaisquer que sejam, sem contar com pelo menos um toque de tecnologia. Como se encontra esse balanço?
Para Fernanda Thurann, atriz, CFO do estúdio Nkanda 360 e CEO da Brisa Filmes, esse equilíbrio começa antes mesmo de a IA entrar no processo. “No Nkanda, a tecnologia nunca é o primeiro passo, ela vem depois de uma decisão conceitual muito clara. O equilíbrio acontece quando a IA trabalha a serviço da memória e não da aparência. Fidelidade histórica não é congelar o passado, e liberdade criativa não é reescrevê-lo sem critério. É esse diálogo entre técnica, intenção e responsabilidade que guia a forma como usamos IA nos nossos projetos”, afirma.
O Nkanda 360 nasceu da percepção de democratizar o acesso de pequenos e médios produtores a alta tecnologia de pós-produção no mercado audiovisual latino-americano. Eles são especialistas em pós-produção audiovisual, com foco em efeitos visuais (VFX) e inteligência artificial — e é aí que entra a grande discussão: quando a IA entra no processo de restaurar ou recriar imagens do passado, em que momento ela deixa de ser uma ferramenta técnica e passa a interferir na narrativa cultural?
Fernanda responde: “quando ela não está mais só restaurando o que existiu, mas escolhendo o que deve ser visto, sentido ou lembrado”. Para ela, no momento em que decisões técnicas, como cor, textura, nitidez, ritmo ou até ausências começam a ser preenchidas por padrões aprendidos, e não por evidência histórica, a tecnologia passa a dialogar diretamente com a narrativa cultural. “Ela deixa de apenas ‘limpar’ o passado e começa a interpretá-lo”, completa.
Ela ainda afirma que essa fronteira não é técnica, mas ética e criativa. A inteligência artificial pode recuperar detalhes, estabilizar imagens, reconstruir trechos perdidos – mas a curadoria do sentido continua sendo da consciência individual. “Quem define o ponto de vista ainda precisa ser humano. A IA executa; a decisão é artística e política”, diz. Há também um ponto delicado: a busca por perfeição. “Quando a IA ‘limpa demais’, pode transformar a memória em produto polido, fácil de consumir, mas menos verdadeiro”, afirma. Grão, ruído, instabilidade e limitações técnicas não são apenas falhas: são marcas do tempo e das condições de produção. Preservar não é corrigir tudo, mas compreender o que aquela imagem estava tentando dizer quando foi criada.
Fernanda reconhece que a IA hoje opera numa zona ambígua: preserva e recria ao mesmo tempo. “Ela ajuda a impedir o desaparecimento de obras degradadas, mas inevitavelmente cria uma camada nova. Toda reconstrução carrega o olhar do presente.” O risco, segundo ela, não está na mediação tecnológica em si, mas em fingir que ela não existe.

Créditos: Priscila Nicheli
Legenda: Fernanda Thurann, atriz, CFO do estúdio Nkanda 360 e CEO da Brisa Filmes (Crédito: Priscila Nicheli)
Quando um algoritmo completa lacunas visuais ou estéticas de uma obra, a pergunta sobre autoria ganha nova complexidade: quem assina o projeto é o humano ou a IA?. Para Fernanda, o criador original continua sendo o autor da intenção e do gesto inaugural. “É dele o contexto e o sentido histórico. Isso não se perde”, afirma. Já quem opera a inteligência artificial assume uma autoria interpretativa. “Essa pessoa não cria do zero, mas também não é neutra. Ela escolhe referências, define limites e toma decisões estéticas e éticas o tempo todo”, diz. A reconstrução é, portanto, um processo de mediação humana com apoio tecnológico.
O sistema, por sua vez, não pode ser tratado como autor. “A IA não tem intenção, memória cultural nem responsabilidade. Ela executa padrões a partir de dados e instruções. Tratar o algoritmo como autor é esconder decisões humanas atrás de uma aparência de neutralidade técnica”, pontua. A questão central passa a ser transparência. Quem decidiu o quê? Em que medida houve reconstrução, interpretação ou expansão criativa?
Para Fernanda, independente de usar ou não a tecnologia artificial como auxílio, o essencial é manter-se ciente das escolhas editoriais – que acabam se tornando políticas. Ela acredita que “quanto mais consciência e transparência houver nesse processo, menos risco existe de que a tecnologia apague o criador original ou se imponha como uma falsa entidade criativa”.
No contexto latino-americano, a discussão sobre IA e memória audiovisual envolve também questões de circulação e identidade. A tecnologia pode reduzir barreiras de acesso, otimizar custos e facilitar restauração, legendagem e adaptação de formatos, ampliando a presença de narrativas da região em circuitos internacionais. “Ela pode, sim, ser uma aliada poderosa para dar visibilidade a histórias que ficaram fora do circuito global”, afirma Fernanda. Ao diminuir entraves técnicos, abre-se espaço para que produções independentes alcancem novos públicos.
Mas há um alerta importante: “a maioria dos modelos é treinada com referências dominantes do eixo Europa–Estados Unidos. Sem consciência crítica, a IA tende a traduzir nossas imagens para um vocabulário visual que o mercado global já reconhece”, diz. O risco é suavizar sotaques visuais, ritmos narrativos e tensões culturais que são justamente a força dessas histórias. A tecnologia pode amplificar identidades — ou diluí-las. O ponto de equilíbrio está em usar a IA para fortalecer especificidades locais, e não para moldá-las a um padrão supostamente neutro. No cenário latino, preservar o passado também significa preservar diferenças.
Os limites éticos do uso de IA para reimaginar o passado ainda estão sendo consolidados pela indústria. Há zonas já reconhecidas como sensíveis: distorcer fatos históricos, atribuir falas ou gestos inexistentes, recriar personagens reais sem contextualização clara. “Quando a tecnologia passa a fabricar passado como se fosse documento, ela deixa de ser criação e vira falsificação de memória”, afirma Fernanda. A fronteira entre interpretação e manipulação precisa ser explicitada — especialmente num ambiente em que imagens restauradas circulam fora do contexto original.
Para ela, a memória audiovisual do futuro será simultaneamente preservada e reescrita. “O ponto central não é evitar a reescrita, mas entender quem está reescrevendo e com quais critérios.” Toda restauração sempre implicou algum grau de mediação; o que muda agora é a escala e a velocidade. O passado, portanto, não será um arquivo intocado nem um produto totalmente moldável. Será um campo em disputa entre tecnologia, mercado, estética e responsabilidade cultural. E, nessa disputa, a pergunta não é se a IA vai intervir, mas como – e com que consciência.
Jornalista de lifestyle. Moda, beleza, gastronomia, esportes e tecnologia sob o olhar das tendências que movem a vida cotidiana.
20 de fevereiro de 2026LifesTec
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