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E se o sistema que existe para te proteger já nasceu sem a chave?

Duas falhas em duas semanas expuseram 75 mil câmeras em SP. O problema não é o sistema ter caído — é como foi construído

Por: Tiago Souza

A ficção científica não previu o Smart Sampa — ela descreveu, antes, o raciocínio que levaria até ele

Créditos: Freepik

A ficção científica não previu o Smart Sampa — ela descreveu, antes, o raciocínio que levaria até ele

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  • Em 3 de novembro, 17 mil equipamentos de empresas conveniadas ao programa Smart Sampa ficaram acessíveis sem senha por cinco dias, incluindo ruas onde moram o ministro Alexandre de Moraes e os ex‑presidentes Temer e FHC.
  • A brecha estava no código‑fonte de um site ligado à Sentinelx, que permitia obter dados ao alterar um número no endereço da página.
  • Os links contendo as informações foram retirados em 30 de outubro, após a Prefeitura de São Paulo, a Sentinelx e a Monuv serem questionadas.
  • A gestão do prefeito Bruno Nunes nega exposição pública e afirma que a planilha foi enviada ilegalmente à reportagem.
Por Tiago Souza

 

Em 20 de outubro, o UOL revelou uma falha que expunha 58 mil câmeras do Smart Sampa, o programa de vigilância da Prefeitura de São Paulo. Nesta terça-feira (3), mostrou outra, de natureza diferente, expondo mais 17 mil equipamentos de empresas conveniadas. Acesso sem senha, por cinco dias, incluindo as ruas onde moram o ministro do STF Alexandre de Moraes e os ex-presidentes Temer e FHC.

Os links saíram do ar na sexta (30), um dia após a Prefeitura, a Sentinelx e a Monuv serem questionadas. A gestão Nunes nega exposição pública e diz que a planilha foi enviada ilegalmente à reportagem. Os dados completos estão nas duas reportagens originais. O que interessa aqui é outra coisa: a cultura pop já tinha avisado.

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O inimigo não é o gênio, é a confiança

Invasores — Nenhum Sistema Está Salvo (2014) foi lido na época como ficção exagerada: um especialista em segurança derruba instituições inteiras com um clique. Doze anos depois, a parte do filme que envelheceu foi a errada. O vilão é um hacker brilhante. Mas, no Smart Sampa, não foi preciso gênio nenhum.

A brecha estava no código-fonte de um site ligado à Sentinelx e funcionava de um jeito quase banal: bastava trocar um número no endereço da página para o sistema entregar dados de outra pessoa. Sem senha, sem autorização, sem verificação de que aquele dado era seu. Nada de sofisticação, nada de talento. E definitivamente não foi “absolute cinema”.

Mas o filme acerta no que importa. Sua tese não é sobre capacidade técnica, e sim sobre confiança mal depositada. A instituição em Invasores cai não porque a defesa é fraca, mas porque o sistema foi construído assumindo que quem tem acesso merece acesso.

Quando a denúncia também é o problema

Snowden: Um Herói do Nosso Tempo, graphic novel de Ted Rall publicada no Brasil pela WMF Martins Fontes, é a obra que faz a pergunta seguinte, e a mais incômoda. Se o sistema está furado, quem deve saber disso? A HQ conta a trajetória de alguém de dentro que descobre que a arquitetura de vigilância tem um lado invisível ao público e decide expor. É a mesma engrenagem que o Smart Sampa aciona: uma vulnerabilidade existe, alguém precisa apontá-la, e a resposta institucional é negar que o problema seja grave.

Só que a HQ também evidencia a diferença de escala e de intenção. Snowden expôs um sistema que funcionava bem demais. O problema era o que o poder fazia com ele. No Smart Sampa, o problema é o oposto: um sistema que nem protege direito e já se expande como produto, com subdomínios em Guarulhos, Campinas, Joinville, Goiânia, Mairiporã e Catanduva.

A HQ também atualiza uma pergunta antiga: quem vigia os vigilantes? Watchmen fez dessa dúvida seu eixo, e a resposta que oferece é a mais amarga possível. No caso do Smart Sampa, a pergunta ganha uma camada extra: o que acontece quando o próprio vigia não sabe se proteger?

Vigilância como mercado, não como segurança

Carbono Alterado leva o raciocínio ao limite. Na distopia de Richard K. Morgan, memória é arquivo, corpo é mercadoria e informação é a única moeda que importa. E vigilância, ali, nunca é sobre segurança: é sobre poder de barganha. A série não propõe solução porque o problema, no universo dela, já venceu. É a obra mais desconfortável das três, porque descreve o ponto de chegada lógico: quando o dado de localização vale dinheiro, ele deixa de ser proteção e passa a ser ativo. E ativos são negociados.

Aqui a série não antecipa tecnologia: antecipa modelo de negócio. O Smart Sampa opera integrando empresas conveniadas, câmeras privadas e uma plataforma vendida a outras cidades. A Folha mostrou que falhas do programa permitiam acessar câmeras de outros municípios. Não é falha de São Paulo: é o modelo que a distopia descreve.

Pra fechar!

As três obras apontam a mesma fratura por ângulos distintos: Invasores diz que a defesa falha por confiança, Snowden que a denúncia é o único freio e Carbono Alterado que, sem freio, a vigilância vira mercado. Nenhuma delas errou. A ficção científica não previu o Smart Sampa — ela descreveu, antes, o raciocínio que levaria até ele.

E o detalhe mais duro é que a realidade não precisou de nenhum gênio do crime, apenas de um campo que aceitava qualquer valor. A provocação para esta semana é: se nem a ficção imaginou um sistema vulnerável por tanta confiança, quantos outros sistemas da sua cidade foram aprovados pela promessa que fizeram, e não pela arquitetura que entregaram?

Tiago Souza

Jornalista e pesquisador com mais de 20 anos dedicados ao universo das HQs, livros, séries e filmes. Escreve a coluna PopTec. Porque o pop não vive sem tec. E tec é o que há de mais pop em um país em que existem mais smartphones do que pessoas.

5 de novembro de 2026

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