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Entre a vitrine e o museu, a moda busca seu lugar nas artes
A fronteira entre moda, arte e produto fica cada vez mais difícil de definir à medida que novas tecnologias ampliam o campo da criação
Créditos: Divulgação
O Retro Rewind - Video Store Simulator nada mais é que um simulador de locadora
No último dia 17, um lançamento curioso sacudiu o topo dos mais vendidos da Steam. Não era um novo Call of Duty ou um RPG de mundo aberto com gráficos fotorrealistas. Era um simulador de locadora de vídeo. Em poucos dias, o jogo alcançou o Top 5 e mantém uma aprovação de 95% na plataforma (“Extremamente Positiva”).
O paradoxo é delicioso: pagamos por um arquivo digital para fingir que estamos em 1995, lidando com fitas VHS pegajosas, clientes exigentes e o cheiro imaginário de pipoca de micro-ondas.
O jogo captura exatamente a alma de Rebobine, Por Favor (Be Kind Rewind, 2008). No filme de Michel Gondry, quando as fitas de uma locadora são apagadas, os protagonistas, Jack Black e Mos Def, decidem refilmar os sucessos de Hollywood de forma artesanal.
O que o filme e o jogo nos ensinam é que a locadora nunca foi sobre o acervo — o streaming já venceu essa batalha há tempos. A locadora era sobre a comunidade e a imperfeição. No jogo, assim como no filme, existe uma satisfação tátil em “ajeitar” as coisas. Sentimos falta do erro humano, do atendente que indicava um filme cult escondido e da fricção física que o algoritmo da Netflix eliminou.
Embora Empire Records (1995) se passe em uma loja de discos, a energia é a mesma que sustenta o sucesso de Retro Rewind. É a mística do “trabalho de balcão” como um refúgio cultural.
Esses espaços eram centros de curadoria humana. Hoje, o algoritmo nos entrega o que “provavelmente gostaremos”, mas ele não consegue replicar o sarcasmo ou o entusiasmo de um atendente real. O simulador de locadora permite que o jogador de 2026 recupere esse protagonismo cultural. Você não é apenas um usuário, você é o curador do bairro.
Há, nesse fenômeno, um movimento claro de reputação da nostalgia. A tecnologia avançou tanto que se tornou invisível e, por vezes, estéril. Para torná-la atraente de novo, a indústria passou a usar o passado como uma roupagem necessária para humanizar o digital.
O resultado é um looping fascinante: usamos o que há de mais moderno em processamento de dados para suprir a carência de um mundo que a própria tecnologia ajudou a desmantelar. É a nostalgia sob demanda. O público de 2026 quer o visual granulado do retrô, mas com a conveniência do save automático. Deseja o fetiche tátil da fita VHS, mas sem o risco real de vê-la mofar ou ser “mastigada” pelo cabeçote do aparelho.
O sucesso de Retro Rewind não é um retrocesso. É um sintoma. Em um mundo de escolhas infinitas e automação absoluta, o ser humano de 2026 está desesperado por um pouco de limitação.
A provocação para esta semana é: será que a tecnologia finalmente percebeu que sua maior utilidade não é nos levar para o futuro, mas servir de máquina do tempo para um passado onde as coisas pareciam mais “reais”?
No fim das contas, talvez a gente só queira que alguém nos diga, com um sorriso irônico no balcão: “Não esqueça de rebobinar”. Spock diria que gastar processamento de ponta para simular fita magnética é ilógico. Mas, para nós, é a única forma de nos sentirmos em casa.
Jornalista e pesquisador com mais de 20 anos dedicados ao universo das HQs, livros, séries e filmes. Escreve a coluna PopTec. Porque o pop não vive sem tec. E tec é o que há de mais pop em um país em que existem mais smartphones do que pessoas.
2 de abril de 2026LifesTec
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