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Entre algoritmos e afeto: a nova era das experiências de marca
Em 2026, marcas equilibram dados, tecnologia invisível e sensorialidade para criar experiências mais humanas, relevantes e memoráveis
Créditos: IGN Brasil
Versão brasileira (esquerda) e versão americana (direita) do livro Battle Royale, de Koushun Takami
O noticiário de 2026 nos entrega uma crueza sem precedentes. Enquanto as tensões entre Israel, Irã e EUA escalam, a internet não nos oferece apenas informações. Ela nos oferece um espetáculo. Diferente da cobertura da Ucrânia, que muitas vezes foca na resistência geopolítica, o conflito no Oriente Médio tem sido consumido como um feed ininterrupto de ataques de precisão, drones com câmeras em primeira pessoa e uma enxurrada de desinformação que aceitamos quase sem resistência.
A tecnologia aqui não é apenas o meio de transmissão, mas o motor da execução. O uso de sistemas de IA como o Lavender e o Gospel (revelados em investigações do Guardian e +972 Magazine) para a seleção automatizada de milhares de alvos em Gaza e além, transformou a guerra em uma “fábrica” de alvos.
Para quem assiste de longe, isso gera o Efeito Black Mirror, especificamente o episódio “Engenharia Reversa” (T03E05): a tecnologia cria uma camada de abstração. Quando um algoritmo decide quem é o alvo, a morte deixa de ser uma tragédia humana para virar um dado estatístico processado. Aceitamos a violência porque ela nos é apresentada com a estética limpa de um software de gestão.
O livro Battle Royale (de Koushun Takami) traz um ponto importante para o debate. Na obra, o governo usa a violência entre jovens para manter a audiência hipnotizada pelo medo e pelo entretenimento mórbido.
Em 2026, vivemos o Battle Royale Digital. Plataformas como Telegram, TikTok e Discord transformaram ataques militares em vídeos curtos com trilhas sonoras virais. A espetacularização chegou a tal ponto que a audiência ocidental consome o conflito como se estivesse assistindo a uma partida de Call of Duty ou um reality show de sobrevivência. Se houvesse um pay-per-view de um conflito real hoje, a audiência não seria apenas provável. Ela seria recorde. A tecnologia removeu a “fricção” da empatia.
O filme Guerra Civil (2024) ilustra perfeitamente esse vício na imagem. A busca pelo ângulo perfeito da destruição ignora o contexto político ou humano. Na internet de hoje, somos todos fotógrafos de guerra passivos. Consumimos a estética da explosão, o brilho do drone no céu noturno, mas ignoramos a pessoa comum que está apenas tentando superar mais um dia sob o fogo cruzado.
A tecnologia de desinformação (deepfakes e bots de influência) atua como o filtro final. Ela nos empurra narrativas religiosas e políticas tão mastigadas que o esforço para questionar a verdade se tornou exaustivo demais. É mais fácil aceitar o espetáculo do que encarar a crueza da realidade.
Celebrar o avanço tecnológico em 2026 é reconhecer que temos a visão de um deus sobre o campo de batalha, mas a sensibilidade de um algoritmo. A guerra se tornou um conteúdo de entretenimento e nós somos a audiência cativa.
A provocação final: em um mundo onde a tragédia real bate recordes de views, o que resta da nossa capacidade de sentir quando a tela se apaga e percebemos que, para quem está sob as bombas, não existe o botão de reiniciar? O futuro chegou, mas ele assiste à própria destruição em alta definição, enquanto espera o próximo vídeo carregar.
Jornalista e pesquisador com mais de 20 anos dedicados ao universo das HQs, livros, séries e filmes. Escreve a coluna PopTec. Porque o pop não vive sem tec. E tec é o que há de mais pop em um país em que existem mais smartphones do que pessoas.
9 de abril de 2026LifesTec
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