menu

PopTec

Pirataria de Grife: o caso Lenovo e o dilema da reputação global

A gigante chinesa coloca sua reputação em risco ao lançar um console recheado de jogos piratas

Por: Tiago Souza

Créditos: Divulgação

Console portátil Lenovo G02

00:00
Modo claro
Modo escuro
A+ A-
  • Lenovo lançou o console portátil G02, contendo milhares de ROMs ilegais com o logotipo da empresa.
  • O aparelho entra em um mercado de consoles retrô em alta, que reúne emuladores de Atari, PlayStation 2, Nintendo DS e outros.
  • Ao oficializar o uso de software pirata, a gigante chinesa amplia a prática antes restrita a marcas menores do mercado cinza.
  • A ação desperta debate sobre a reputação global da Lenovo e a violação de direitos autorais no setor de jogos.
Por Tiago Souza

 

O mercado de consoles portáteis retrô vive seu momento de ouro. Dispositivos que emulam décadas de história — do Atari ao PlayStation 2, passando por Master System e Nintendo DS — tornaram-se objetos de desejo global. O grande atrativo desse setor não é apenas a nostalgia, mas a conveniência: consoles ‘chave na mão’, já com milhares de jogos instalados, vendidos a preços agressivos em sites de venda internacional. O problema é que, em sua grande maioria, esse conteúdo é puramente pirata.

A entrada da Lenovo nesse cenário com o G02, porém, elevou o tom da discussão. Ao estampar seu logotipo oficial em um aparelho recheado de ROMs ilegais, a gigante chinesa oficializa o que antes era restrito a marcas menores do mercado cinza.

Leia também:

Nostalgia: ativo que move multidões

Essa febre pelos clássicos não é passageira. O mercado de jogos antigos é o que movimenta eventos como a Retrocon no Brasil, onde a celebração da história dos games é o motor principal. No entanto, existe uma linha ética muito clara que separa o entusiasta que preserva um software antigo da corporação bilionária que comercializa um hardware oficial com conteúdo protegido por direitos autorais da Nintendo, Sony e Sega.

Enquanto marcas como Anbernic ou Miyoo operam nas sombras do licenciamento, a Lenovo é uma parceira global dessas mesmas empresas que agora está “canibalizando”. Ao utilizar o formato clássico do Game Boy para atrair o consumidor, a Lenovo não está apenas vendendo um gadget, está validando um ecossistema de pirataria que, em qualquer outro fórum de governança, ela afirmaria combater fervorosamente.

O risco da “marca de conveniência”

O grande atrativo desses consoles é justamente o que os torna ilegais: a facilidade de ter tudo pronto, sem precisar caçar emuladores ou arquivos na internet. Mas quando uma empresa do porte da Lenovo adota essa estratégia, ela fere a sua própria reputação de inovação. Sua resposta ao site Retrododo — de que o produto é fruto de um ‘licenciamento regional’ para a China — soa como uma tentativa frágil de isolar um incêndio em um mundo onde o AliExpress não respeita fronteiras.
O G02 pode até ser um sucesso de vendas imediato no mercado chinês, mas o custo de imagem a longo prazo — ao ser vista como uma marca que busca atalho às regras de propriedade intelectual — pode ser muito mais caro do que o lucro gerado por esse licenciamento regional.

Pra fechar!

Este caso da Lenovo nos obriga a questionar se a escala global das Big Techs as torna imunes às regras que elas mesmas ajudaram a criar. A tecnologia deveria servir para expandir o acesso legal à cultura, não para institucionalizar o mercado cinza sob o pretexto de uma barreira geográfica que, na prática, não existe mais.

A provocação para esta semana é: em um mundo onde a conveniência é o produto final, quanto da nossa ética estamos dispostos a sacrificar por um console barato? Talvez a reputação de uma marca não se meça pelo que ela lança, mas pelo que ela se recusa a oficializar.

Tiago Souza

Jornalista e pesquisador com mais de 20 anos dedicados ao universo das HQs, livros, séries e filmes. Escreve a coluna PopTec. Porque o pop não vive sem tec. E tec é o que há de mais pop em um país em que existem mais smartphones do que pessoas.

28 de maio de 2026

recomendadas