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Desconectar virou luxo? Como a tecnologia pode devolver nosso tempo

Em meio à hiperconexão e à rotina acelerada, inteligência artificial e automação prometem simplificar tarefas. O desafio, porém, é transformar a eficiência em tempo livre, bem-estar e experiências cotidianas com mais presença

Por: Clarissa Palácio

A tecnologia pode contribuir para a qualidade de vida ao facilitar a organização do cotidiano e liberar tempo para atividades que vão além das tarefas diárias

Créditos: Divulgação

A tecnologia pode contribuir para a qualidade de vida ao facilitar a organização do cotidiano e liberar tempo para atividades que vão além das tarefas diárias

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  • Em julho de 2026, a St. Dalfour, marca da Aurora Fine Brands, promoveu oficina de produção de velas para discutir conveniência e qualidade de vida.
  • Mariana Antonachi, gerente de marketing da Aurora Fine Brands Confectionary, alertou que a praticidade tecnológica pode gerar novas obrigações e culpa ao parar.
  • Dados da PNAD Contínua (IBGE) divulgados em julho de 2026 mostram que 90,5 % dos brasileiros com 10 anos ou mais usaram a internet em 2025.
  • Pesquisa do Pew Research Center (maio‑junho 2026) indica que pouco mais da metade dos adultos nos EUA consideram passar tempo demais no smartphone.
Por Clarissa Palácio

 

“A vida é o que acontece enquanto você está ocupado fazendo outros planos”, diz John Lennon na música “Beautiful Boy (Darling Boy)“. O álbum que contém a composição foi lançado em 1980 e, mais de uma geração depois, a reflexão parece ganhar novos contornos; Uma rotina na qual até os momentos de descanso são frequentemente preenchidos por alguma tarefa. O café da manhã é acompanhado por notificações, o intervalo do almoço vira uma oportunidade para responder e-mails e até os períodos de lazer acabam ocupados por alguma atividade digital. A conectividade ampliou as possibilidades de comunicação e acesso à informação, mas também tornou mais tênue a divisão entre os períodos de produtividade e de descanso. Nesse cenário, encontrar tempo para simplesmente viver o presente exige uma escolha cada vez mais consciente.

A relação entre conveniência e qualidade de vida ganha relevância à medida que novas ferramentas prometem realizar tarefas em menos tempo. Aplicativos de organização, assistentes de inteligência artificial e sistemas de automação residencial podem simplificar atividades que antes exigiam atenção constante. A proposta é liberar espaço na rotina, seja para preparar uma refeição, organizar a casa ou simplesmente descansar. Entretanto, existe um paradoxo nessa promessa: se a tecnologia permite fazer mais em menos tempo, por que a sensação de falta de tempo continua tão presente? A questão não está apenas na eficiência das ferramentas, mas no destino dado aos minutos que elas supostamente economizam.

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A relação entre conveniência e qualidade de vida esteve no centro de um encontro promovido pela St. Dalfour, marca do portfólio da Aurora Fine Brands, que reuniu no RG Think Food, em São Paulo, alimentação e experiências sensoriais em uma oficina de produção de velas. A atividade propôs uma pausa na rotina por meio de um trabalho manual, com aromas e cores inspirados nos sabores das geleias da marca. Mais do que apresentar um produto, a experiência permitiu a nós, convidados, observar uma discussão que atravessa diferentes aspectos do lifestyle contemporâneo: a valorização de atividades simples que exigem presença. Para Mariana Antonachi, Marketing Manager da Aurora Fine Brands Confectionary, o desafio está em não permitir que a praticidade seja imediatamente substituída por novas obrigações. “Acho que a gente se acostumou a preencher qualquer espaço disponível. Resolve uma tarefa mais rápido e já aproveita para responder uma mensagem, adiantar uma entrega, organizar outra coisa. No fim, o tempo que ganhou desaparece no meio de novas demandas”, afirma.

O tempo livre virou artigo de luxo?

A expansão do acesso à internet ajuda a dimensionar o lugar que a conectividade ocupa na vida cotidiana. Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em julho de 2026, 90,5% da população brasileira com dez anos ou mais utilizou a internet em 2025. O levantamento contabilizou 168,7 milhões de pessoas conectadas, considerando o uso da rede nos três meses anteriores à pesquisa. Entre os dispositivos utilizados para acessar a internet, o telefone celular aparece na primeira posição, citado por 98,7% dos usuários. Os números não medem diretamente o tempo de tela, mas mostram como a conexão está incorporada às atividades da população brasileira.

A percepção de excesso também aparece em levantamentos internacionais. Uma pesquisa do Pew Research Center, realizada entre maio e junho de 2026 com adultos dos Estados Unidos, identificou que pouco mais da metade dos entrevistados considera passar tempo demais no smartphone. Entre os participantes com menos de 50 anos, a percepção era ainda mais frequente. O levantamento também mostrou que aproximadamente um terço dos adultos considera adequado o tempo que dedica ao aparelho. Embora os resultados não possam ser automaticamente aplicados à população brasileira, eles ajudam a ilustrar uma preocupação que acompanha a popularização dos dispositivos móveis. A questão deixou de ser somente quanto tempo as pessoas passam conectadas e passou a incluir como esse uso interfere na experiência cotidiana.

Para Mariana, a dificuldade de desacelerar também está relacionada à sensação de que todo intervalo precisa ser aproveitado de maneira produtiva. “E existe uma sensação de que precisamos estar sempre fazendo alguma coisa. Conseguir parar sem culpa também virou um desafio”, afirma. Na avaliação da executiva, o bem-estar pode estar associado a experiências que não exigem grandes mudanças na rotina, como uma refeição agradável, um banho mais demorado ou uma atividade manual. Ela ressalta que cada pessoa possui uma realidade diferente, mas considera importante reconhecer o valor do descanso e das atividades realizadas simplesmente por prazer. A percepção ajuda a deslocar a discussão sobre produtividade para uma questão menos ligada ao volume de tarefas e mais relacionada à qualidade do tempo disponível.

A valorização dessas experiências também aparece na oficina de velas realizada pela marca. Durante a atividade, os participantes puderam escolher aromas e cores, trabalhar com as próprias mãos e acompanhar a transformação dos materiais em um objeto. “Trabalhar com as mãos, escolher um aroma e acompanhar algo tomando forma cria uma oportunidade de dedicar atenção ao que estamos fazendo”, explica Mariana. Segundo ela, experiências desse tipo oferecem um espaço de presença em uma rotina marcada por estímulos constantes. A atividade também propunha uma continuidade fora do encontro, já que cada participante poderia levar a vela para casa e utilizá-la em outro momento de pausa. O exemplo ilustra como atividades manuais podem integrar o cotidiano sem depender de longos períodos de disponibilidade.

O papel da tecnologia na busca por bem-estar

Se a conectividade contribui para uma rotina mais acelerada, as próprias ferramentas digitais também podem ajudar a reorganizá-la. Aplicativos de planejamento permitem distribuir compromissos, listas de compras e tarefas domésticas, enquanto assistentes de inteligência artificial podem auxiliar na elaboração de cardápios, na organização de informações e na busca por soluções para problemas cotidianos. Em vez de substituir todas as decisões, essas ferramentas funcionam como apoio para atividades que consomem tempo e atenção. O benefício, entretanto, depende da maneira como são incorporadas à rotina e da complexidade das tarefas que conseguem executar. A tecnologia só representa um ganho efetivo quando reduz uma demanda sem criar outras na mesma proporção.

Um estudo publicado em março de 2026 pelo Stanford Institute for Economic Policy Research (SIEPR), intitulado The Household Impact of Generative AI: Evidence from Internet Browsing Behavior, investigou os efeitos da inteligência artificial generativa na organização das atividades domésticas de famílias norte-americanas. A pesquisa utilizou dados de navegação na internet coletados entre 2021 e 2024 e identificou um aumento no tempo dedicado à navegação de lazer em dispositivos domésticos após a adoção do ChatGPT. Os pesquisadores não observaram uma redução equivalente no tempo destinado a atividades digitais produtivas, mas apontaram que a IA pode aumentar a eficiência de tarefas não remuneradas realizadas em casa. A interpretação apresentada no estudo é que a ferramenta pode liberar tempo para atividades de lazer ao facilitar determinadas tarefas cotidianas. O resultado oferece uma perspectiva sobre a possibilidade de a inteligência artificial contribuir para a organização da vida fora do ambiente profissional.

Outro levantamento, divulgado em agosto de 2026 pelo Census Bureau dos Estados Unidos, também investigou a economia de tempo associada à inteligência artificial. De acordo com a pesquisa Household Trends and Outlook Pulse Survey, 56% dos trabalhadores norte-americanos entrevistados relataram ter utilizado IA em pelo menos uma das atividades profissionais avaliadas. Entre aqueles que utilizaram a tecnologia na semana anterior à pesquisa, 31% afirmaram que a ferramenta economizou de uma a duas horas de trabalho. Outros 15% relataram uma economia de três a quatro horas, enquanto uma parcela também mencionou não ter economizado tempo. Os resultados se referem ao ambiente profissional nos Estados Unidos e não representam uma estimativa da economia de tempo entre consumidores brasileiros. Ainda assim, mostram que a promessa de eficiência já pode ser observada em determinadas atividades.

Para Mariana, a melhor maneira de avaliar se uma ferramenta tecnológica realmente melhora a qualidade de vida é observar seus efeitos sobre a rotina. “Você ficou menos sobrecarregado? Conseguiu descansar? Teve mais disponibilidade para estar com alguém ou fazer algo de que gosta?”, questiona. A executiva considera que a economia de tempo, isoladamente, não é suficiente para determinar se uma inovação trouxe benefícios. “Se o tempo economizado vira imediatamente mais trabalho, talvez a rotina esteja mais produtiva, mas ainda precisamos entender o que melhorou para aquela pessoa”, afirma. A reflexão coloca em evidência uma diferença importante entre eficiência e bem-estar: concluir mais tarefas não significa necessariamente ter mais tempo para si.

Mariana Antonachi, Marketing Manager da Aurora Fine Brands Confectionary

Créditos: Divulgação

Legenda: Mariana Antonachi, Marketing Manager da Aurora Fine Brands Confectionary

Comer sem pressa também faz parte da experiência

A alimentação é um dos exemplos mais cotidianos de como a praticidade pode coexistir com a valorização de experiências. Preparar o café da manhã, por exemplo, não precisa envolver uma receita elaborada ou uma longa permanência na cozinha para se transformar em um momento de prazer. A escolha dos ingredientes, a combinação de sabores e a atenção à textura dos alimentos podem modificar a maneira como uma refeição simples é vivenciada. Nesse contexto, a conveniência não precisa significar uma alimentação automática, consumida entre uma notificação e outra. O preparo pode ser simplificado justamente para que a experiência à mesa receba mais atenção.

“Um café da manhã pode ser rápido de preparar e muito prazeroso. Uma torrada com geleia, por exemplo, permite explorar sabores e combinações sem exigir uma receita elaborada”, afirma Mariana. Para ela, a praticidade pode facilitar o acesso a experiências gastronômicas mesmo quando a disponibilidade de tempo é limitada. A executiva também destaca que a atenção aos detalhes modifica a percepção da refeição. “A gente começa a perceber o que costuma passar despercebido. O aroma do café, a textura do pão, os pedaços de fruta da geleia, uma combinação que nunca tinha experimentado”, diz. A proposta, segundo ela, não depende de uma mesa elaborada ou de uma manhã inteira livre, mas de reservar alguns minutos para a experiência.

A relação entre atenção e alimentação também é objeto de pesquisas científicas. Uma revisão sistemática publicada em dezembro de 2025 na revista Nutrients, intitulada The Impact of Mindfulness Interventions upon Visual Attention and Attentional Bias Towards Food Cues, analisou seis estudos sobre os efeitos de intervenções baseadas em atenção plena na relação dos adultos com estímulos alimentares. Os pesquisadores identificaram resultados promissores em algumas intervenções, incluindo possíveis mudanças na atenção direcionada a alimentos de alta densidade energética e na percepção dos sinais internos relacionados à alimentação. Entretanto, os autores ressaltaram que os resultados ainda são preliminares, devido ao número reduzido de estudos, às amostras pequenas e às diferenças metodológicas entre as pesquisas. A revisão, portanto, não permite afirmar que comer com atenção produz os mesmos efeitos para todas as pessoas, mas indica que a relação entre atenção, percepção sensorial e comportamento alimentar merece investigação.

Além da experiência durante a refeição, a origem e a composição dos ingredientes também participam das escolhas de consumo. Mariana observa que existe curiosidade sobre os processos envolvidos na produção dos alimentos, desde a seleção das matérias-primas até as técnicas utilizadas no preparo. “Quais ingredientes foram usados? De onde vieram? Como foram preparados? Isso ajuda o consumidor a entender as diferenças entre os produtos e a fazer suas escolhas”, afirma. No caso da St. Dalfour, a executiva destaca a utilização de sucos de uva e tâmara como fontes de doçura na receita, sem adição de açúcar refinado, além da seleção das frutas e do cuidado com a textura. Essas características são informações sobre a composição e o processo do produto da marca, apresentadas pela entrevistada, e não devem ser interpretadas como uma recomendação nutricional geral.

Uma casa inteligente precisa de uma rotina mais humana

A discussão sobre tempo livre também passa pelo ambiente doméstico, onde tarefas recorrentes podem consumir parte considerável do dia. Limpeza, organização, preparo de refeições e acompanhamento de compras são atividades que exigem planejamento, mesmo quando realizadas em pequenos intervalos. Nesse cenário, a automação residencial oferece alternativas para reduzir determinadas etapas do trabalho doméstico. Robôs aspiradores, eletrodomésticos programáveis, sensores e assistentes virtuais podem executar ações de maneira automática ou permitir que algumas tarefas sejam controladas à distância. O objetivo não precisa ser transformar a casa em um ambiente completamente automatizado, mas identificar quais atividades podem ser simplificadas sem comprometer o conforto e a autonomia dos moradores.

Os dados brasileiros mostram que esse tipo de tecnologia já está presente em parte dos domicílios. Segundo o módulo de Tecnologia de Informação e Comunicação da PNAD Contínua, divulgado pelo IBGE em julho de 2026, 20,2% dos domicílios brasileiros com acesso à internet possuíam algum tipo de dispositivo inteligente em 2025. O percentual correspondia a aproximadamente 15,4 milhões de residências. Entre 2024 e 2025, houve um aumento de 2,1 milhões de domicílios com esses equipamentos, equivalente a uma expansão de 2,2 pontos percentuais na proporção. O indicador considera a presença de dispositivos inteligentes, mas não significa que todas essas residências tenham sistemas completos de automação. Ainda assim, o levantamento oferece um retrato da incorporação gradual dessas soluções ao espaço doméstico.

A expansão da inteligência artificial também abre possibilidades para a organização da casa. Ferramentas digitais podem auxiliar no planejamento de compras, na elaboração de cardápios e na distribuição de tarefas, enquanto dispositivos conectados permitem programar determinadas atividades. Entretanto, a presença de tecnologia não garante, por si só, uma rotina mais simples. A instalação, a configuração, a manutenção e a integração entre equipamentos também exigem atenção dos moradores. Por isso, a avaliação de uma solução doméstica precisa considerar não apenas o que ela promete executar, mas o trabalho necessário para colocá-la em funcionamento. Quando a ferramenta resolve um problema concreto, a automação pode representar um ganho; quando adiciona etapas desnecessárias, corre o risco de se tornar mais uma obrigação.

A própria experiência de Mariana na fábrica da St. Dalfour ajuda a ilustrar a possibilidade de combinar eficiência tecnológica e participação humana. Segundo ela, a produção conta com uma organização estruturada, mas mantém etapas que dependem da avaliação de profissionais. “A tecnologia participa do processo, e essa avaliação humana acrescenta uma etapa de cuidado que a marca faz questão de manter”, afirma, ao descrever a seleção manual das frutas após a pré-lavagem. A executiva também destaca o cozimento lento como parte do processo de produção das geleias, realizado para preservar características das frutas e a textura dos pedaços. Embora o exemplo pertença à indústria alimentícia, ele ajuda a ilustrar uma questão que também aparece na automação doméstica: nem toda etapa precisa ser acelerada para que o resultado seja eficiente. A escolha de onde aplicar a tecnologia e onde preservar a intervenção humana faz parte da discussão sobre inovação e qualidade.

A relação entre tecnologia e qualidade de vida depende menos da quantidade de dispositivos disponíveis e mais da maneira como eles interferem na organização do cotidiano e no tempo que se libera a partir disso. Para Mariana, esse processo começa com a identificação do que cada pessoa gostaria de fazer com os minutos que consegue recuperar. “Às vezes, é algo simples: tomar um café com calma, fazer uma atividade manual, ficar um pouco em silêncio”, afirma. A executiva também defende que as experiências propostas pelas marcas tenham continuidade na vida das pessoas, para além de uma ação pontual. “Ter isso em mente pode ajudar a preservar algum espaço antes que ele seja ocupado por novas demandas”, conclui.

Clarissa Palácio

Jornalista de lifestyle. Moda, beleza, gastronomia, esportes e tecnologia sob o olhar das tendências que movem a vida cotidiana.

6 de novembro de 2026

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