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Em ambientes realmente inovadores, errar para aprender, experimentar com frequência e colaborar com parceiros externos são práticas incentivadas, não exceções
Resolver problemas de última hora, adaptar rotas no meio do caminho, encontrar saídas criativas quando os recursos parecem insuficientes. No cotidiano brasileiro, do trabalho à vida doméstica, improvisar raramente é exceção. É quase método. Não é à toa que, ao redor do mundo, somos conhecidos justamente pela capacidade impressionante de lidar com determinadas situações com uma característica que já é mais que estabelecido como marco cultural: o famoso “jeitinho brasileiro”.
Essa habilidade de reagir rapidamente a mudanças e contornar obstáculos faz parte do modo de viver do país e costuma ser celebrada como uma espécie de talento nacional. Mas, quando o assunto é inovação, o improviso levanta uma pergunta menos confortável: até que ponto a criatividade espontânea impulsiona novas ideias? E quando ela passa a ocupar o lugar de planejamento, estratégia e continuidade? Em um cenário global no qual empresas competem cada vez mais por tecnologia, conhecimento e velocidade de adaptação, improvisar pode ser tanto vantagem quanto limite.
A discussão ganha relevância em um momento em que o Brasil tenta ampliar sua competitividade tecnológica. Nos últimos anos, iniciativas públicas e privadas ampliaram investimentos e programas voltados à inovação. Ainda assim, transformar criatividade em revoluções estruturadas continua sendo um desafio.
Segundo a Pesquisa de Inovação (Pintec) 2023, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2025, 64,6% das empresas industriais brasileiras com 100 ou mais funcionários implementaram algum tipo de inovação em produtos ou processos naquele ano. O percentual é menor que o registrado em 2022 (68,1%) e 2021 (70,5%).
Para Valter Pieracciani, sócio fundador da consultoria Pieracciani, entender esse paradoxo exige olhar além das planilhas e dos processos corporativos. A inovação, afirma ele, está profundamente ligada à forma como uma sociedade se organiza, toma decisões e lida com risco, erro e planejamento. “Se colocarmos na mesma sala grupos de executivos brasileiros, europeus – alemães por exemplo – americanos e asiáticos, não temos a menor dúvida quem sairia na frente diante de situações de ameaça que exigissem soluções criativas”, diz. Em outras palavras, ela também é reflexo de um estilo de vida.
A habilidade de improvisar não surgiu por acaso no Brasil. Ela foi moldada por um ambiente econômico e institucional marcado, historicamente, por mudanças rápidas, instabilidade e necessidade constante de adaptação. “Somos mesmo campeões no campo da improvisação. Nós, brasileiros, crescemos enfrentando o improvável, as mudanças, e convivendo permanentemente com uma parcela de riscos entre as maiores do planeta”, define Pieracciani.
Esse contexto acabou formando profissionais altamente adaptáveis. “A realidade forjou um exército de ‘ágeis criativos’”, comenta. Flexibilidade, improvisação e capacidade de reagir rapidamente a mudanças são características frequentemente valorizadas em ambientes corporativos no país, especialmente quando há pressão por resultados ou escassez de recursos. Mas é justamente aí que surge um limite estrutural quando o assunto é inovação contínua. “Criatividade, flexibilidade, bossa e arrojo não são suficientes para que a inovação de qualidade aconteça de forma sistêmica e sustentável”, afirma.
Apesar da criatividade frequentemente associada ao país, a inovação ainda aparece em muitas empresas brasileiras como resposta a crises ou pressões externas, e não como prática cotidiana. Essa dinâmica ajuda a explicar por que diversas iniciativas inovadoras surgem de forma pontual, mas têm dificuldade de se sustentar ao longo do tempo.
Os próprios indicadores reforçam esse cenário. A Pintec lançada em 2025 mostra que a taxa de empresas industriais inovadoras caiu pelo segundo ano consecutivo em 2023. O estudo também indica que companhias maiores inovam mais. Entre empresas com mais de 500 funcionários, a taxa chegou a 73,6%.
Para Pieracciani, parte desse desafio está ligada à forma como a inovação ainda é percebida dentro das organizações. “Temos uma ideia distorcida de como se alcança a inovação. Ensinaram-nos na escola que inovação é o lampejo, o insight repentino. Isso é uma grande distorção”, afirma.
Na prática, o processo costuma ser menos glamouroso. Inovação exige rotina, método e persistência. “As empresas inovadoras têm verdadeiras ‘máquinas de inovação’ implantadas. Ideias são geradas, tratadas e selecionadas permanentemente”, explica. Sem esse sistema, a inovação tende a aparecer apenas quando alguma ameaça externa força a empresa a reagir.

Créditos: Divulgação
Legenda: Valter Pieracciani, sócio fundador da consultoria Pieracciani
Nos últimos anos, muitas organizações passaram a criar áreas de inovação ou programas internos para estimular novas ideias. Embora essas iniciativas sejam importantes, especialistas apontam que elas raramente funcionam quando não estão conectadas à cultura da empresa. Para Pieracciani, o erro mais comum é tratar inovação como um projeto isolado. “Empresas que acham que inovação é coisa dos líderes apenas, ou que não dependem de mudanças na gestão, erram feio”, afirma. Em sua visão, inovação precisa fazer parte da governança organizacional, e não apenas de um departamento específico.
Isso significa construir um sistema consistente capaz de transformar ideias em resultados concretos. Segundo o especialista, quatro elementos são essenciais: uma estratégia clara sobre onde inovar, pessoas capacitadas, processos estruturados e conexões com parceiros externos, como universidades e startups. A cultura organizacional também exerce um papel central. “Cultura organizacional pode ser definida como aquilo que pega bem dentro da empresa”, explica. Em ambientes realmente inovadores, errar para aprender, experimentar com frequência e colaborar com parceiros externos são práticas incentivadas, não exceções.
A tensão entre improviso e planejamento aparece com clareza quando se observa como muitas empresas brasileiras lidam com estratégias de longo prazo. De um lado, existe uma enorme capacidade de reagir rapidamente a mudanças. De outro, uma dificuldade recorrente de estruturar processos que sustentem a inovação ao longo do tempo.
Para Pieracciani, o país possui atributos culturais que poderiam transformá-lo em uma potência inovadora. “Tudo é favorável aos brasileiros no campo da inovação. Temos o que outros povos não têm: ginga, bossa, criatividade, astral, flexibilidade”, afirma. O problema surge quando essas qualidades não são acompanhadas por gestão estruturada. “Sem o esqueleto que é a gestão, nada disso se sustenta. Não fica em pé”.
Segundo ele, muitas empresas deixam de planejar a inovação porque acreditam que o ambiente mudará rapidamente, e que qualquer estratégia se tornará obsoleta. Ainda assim, o planejamento continua sendo necessário. “É preciso estabelecer estratégias de inovação, mesmo que elas mudem no dia seguinte. Até lá estaremos convergindo esforços e avançando”. Quando essas mudanças (que são inevitáveis) acontecem, a capacidade brasileira de improvisar volta a aparecer como diferencial, agora apoiada por uma base estratégica.
Transformar inovação em prática cotidiana exige mudanças que vão além da criação de processos formais. Em muitos casos, a transformação começa pela revisão de hábitos e crenças dentro das organizações. Segundo Pieracciani, adaptar rituais internos pode ser um primeiro passo. “Revisitar e redefinir as crenças da empresa é determinante para criar um ambiente favorável à inovação.” Isso inclui incentivar experimentação, tolerar erros como parte do aprendizado e estimular colaboração entre diferentes áreas.
Nesse contexto, o papel das lideranças também muda. Em vez de centralizar decisões ou tentar gerar ideias sozinhos, líderes precisam criar condições para que as ideias apareçam e se desenvolvam. “O verdadeiro papel do líder da empresa inovadora não é promover a geração de ideias, mas assegurar um ambiente favorável para que elas prosperem e se tornem resultados”, finaliza. Quando esse sistema se consolida, a inovação deixa de ser um evento extraordinário e passa a fazer parte da rotina.
Jornalista de lifestyle. Moda, beleza, gastronomia, esportes e tecnologia sob o olhar das tendências que movem a vida cotidiana.
13 de março de 2026LifesTec
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