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Créditos: Divulgação
Console portátil Lenovo G02
O mercado de consoles portáteis retrô vive seu momento de ouro. Dispositivos que emulam décadas de história — do Atari ao PlayStation 2, passando por Master System e Nintendo DS — tornaram-se objetos de desejo global. O grande atrativo desse setor não é apenas a nostalgia, mas a conveniência: consoles ‘chave na mão’, já com milhares de jogos instalados, vendidos a preços agressivos em sites de venda internacional. O problema é que, em sua grande maioria, esse conteúdo é puramente pirata.
A entrada da Lenovo nesse cenário com o G02, porém, elevou o tom da discussão. Ao estampar seu logotipo oficial em um aparelho recheado de ROMs ilegais, a gigante chinesa oficializa o que antes era restrito a marcas menores do mercado cinza.
Essa febre pelos clássicos não é passageira. O mercado de jogos antigos é o que movimenta eventos como a Retrocon no Brasil, onde a celebração da história dos games é o motor principal. No entanto, existe uma linha ética muito clara que separa o entusiasta que preserva um software antigo da corporação bilionária que comercializa um hardware oficial com conteúdo protegido por direitos autorais da Nintendo, Sony e Sega.
Enquanto marcas como Anbernic ou Miyoo operam nas sombras do licenciamento, a Lenovo é uma parceira global dessas mesmas empresas que agora está “canibalizando”. Ao utilizar o formato clássico do Game Boy para atrair o consumidor, a Lenovo não está apenas vendendo um gadget, está validando um ecossistema de pirataria que, em qualquer outro fórum de governança, ela afirmaria combater fervorosamente.
O grande atrativo desses consoles é justamente o que os torna ilegais: a facilidade de ter tudo pronto, sem precisar caçar emuladores ou arquivos na internet. Mas quando uma empresa do porte da Lenovo adota essa estratégia, ela fere a sua própria reputação de inovação. Sua resposta ao site Retrododo — de que o produto é fruto de um ‘licenciamento regional’ para a China — soa como uma tentativa frágil de isolar um incêndio em um mundo onde o AliExpress não respeita fronteiras.
O G02 pode até ser um sucesso de vendas imediato no mercado chinês, mas o custo de imagem a longo prazo — ao ser vista como uma marca que busca atalho às regras de propriedade intelectual — pode ser muito mais caro do que o lucro gerado por esse licenciamento regional.
Este caso da Lenovo nos obriga a questionar se a escala global das Big Techs as torna imunes às regras que elas mesmas ajudaram a criar. A tecnologia deveria servir para expandir o acesso legal à cultura, não para institucionalizar o mercado cinza sob o pretexto de uma barreira geográfica que, na prática, não existe mais.
A provocação para esta semana é: em um mundo onde a conveniência é o produto final, quanto da nossa ética estamos dispostos a sacrificar por um console barato? Talvez a reputação de uma marca não se meça pelo que ela lança, mas pelo que ela se recusa a oficializar.
Jornalista e pesquisador com mais de 20 anos dedicados ao universo das HQs, livros, séries e filmes. Escreve a coluna PopTec. Porque o pop não vive sem tec. E tec é o que há de mais pop em um país em que existem mais smartphones do que pessoas.
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