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E a IA?

No futebol da IA, jogadores têm gêmeos digitais, juízes são filhos únicos e a poesia definha nas mesas dos botecos

A tecnologia que decifra o milímetro no gramado escancara a maior assimetria do esporte: a blindagem intocável de quem apita diante do erro e torcedores que vibram pelo VAR

Por: Adalberto Viviani

Créditos: Freepik

Ao tentar eliminar o erro do esporte, a tecnologia acabou por escancarar o abismo que existe entre a punição implacável aplicada a quem joga e a condescendência reservada a quem apita

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  • O VAR, assistente de vídeo, utiliza IA e dezenas de câmeras de alta velocidade para analisar lances em tempo real.
  • FIFA e IFAB limitam a intervenção do VAR a quatro situações: gols/infrações na jogada do gol, pênaltis, cartões vermelhos diretos e erros de identidade.
  • A revisão segue três etapas, começando com a checagem silenciosa na cabine por operadores.
  • A tecnologia visa reduzir erros humanos nas decisões esportivas, tornando o futebol mais controlado.

O futebol sempre foi o território sagrado do imprevisível. Por mais de um século, sua beleza residiu no fato de ser um sistema caótico e apaixonante baseado em regras claras, mas interpretado por humanos falíveis. O drible desconcertante, o chute improvável e o erro humano do atacante que perde um gol sem goleiro ao árbitro que marca uma falta inexistente dividiam o mesmo ecossistema. O erro do juiz era folclórico, debatido nas mesas de bar como parte indissociável do drama. A era digital decretou o fim dessa antiga aleatoriedade. Sob o comando do Árbitro Assistente de Vídeo (VAR) e de uma complexa arquitetura de Inteligência Artificial, o erro esportivo virou um elemento sob vigilância implacável. Mas essa evolução tecnológica trouxe consigo uma profunda contradição: ela expõe o atleta ao limite do milímetro, retira o debate imperdível sobre o entrou e o não entrou na mesa do bar e mantém a arbitragem protegida em uma redoma de vidro.

Para entender esse novo cenário, é preciso compreender o que é o VAR e como ele opera. Longe de ser apenas um operador de videoteipe, o VAR é um sistema de suporte à decisão que utiliza dezenas de câmeras de alta velocidade e algoritmos para corrigir erros claros e manifestos. Seu protocolo de atuação, ditado pela FIFA e pela IFAB, restringe a intervenção a apenas quatro situações críticas que podem mudar o rumo de um jogo: gols e infrações na jogada do gol, marcações ou omissões de pênalti, cartões vermelhos diretos e erros de identidade na aplicação de cartões.

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Sua dinâmica de funcionamento ocorre em três etapas. Primeiro, há a checagem silenciosa na cabine, onde operadores analisam cada lance em tempo real. Se uma anomalia é detectada, ocorre o alerta ao árbitro de campo. Por fim, o juiz realiza a revisão na lateral do gramado, exceto em decisões estritamente geográficas, onde ele aceita a marcação factual da tecnologia. Assim, o futebol passa a se assemelhar à F1. Décimos de milímetros mudam tudo. A diferença é que a F1 é, por si só, uma disputa de engenheiros além de pilotos.

O VAR poderá ser aplicado a outros esportes. Ginástica, boxe, skate ou qualquer esporte que exija movimento. Assim, atletas trabalharão para o espanto da tecnologia e os humanos serão apenas um detalhe.

A grande revolução recente, consolidada a partir da Copa do Mundo, é a Tecnologia de Impedimento Semiautomático (SAOT). É aqui que a Inteligência Artificial e o conceito de gêmeo digital entram em campo para redefinir o que entendemos por espaço e tempo. Para que o sistema funcione, cada jogador que entra no torneio passa previamente por um escaneamento tridimensional detalhado. Durante a partida, uma rede de câmeras especiais instaladas na cobertura do estádio rastreia múltiplos pontos anatômicos de cada atleta dezenas de vezes por segundo. Ao cruzar o escaneamento prévio com o rastreamento em tempo real, a IA cria, instantaneamente, um gêmeo digital de cada jogador. Todos passam a ter uma representação tridimensional perfeita do seu corpo dentro de um ambiente virtual simulado.

Esse gêmeo digital é fundido aos dados da bola conectada, que possui um sensor em seu interior que envia sua posição precisa centenas de vezes por segundo. Quando a bola é chutada, a IA calcula exatamente a posição de cada gêmeo digital e gera uma animação 3D automática que determina, sem margem para dúvidas humanas, se o braço, o joelho ou a ponta da chuteira do atacante estava um milímetro à frente do defensor. A linha de impedimento não é mais traçada no olho pelo operador. Ela é calculada por vetores em um universo paralelo virtual.

Essa precisão cirúrgica criou uma metáfora fascinante sobre as relações de poder no futebol moderno. Em campo, os jogadores agora possuem gêmeos digitais. Suas ações, seus desvios de conduta, seus mínimos gestos de malícia ou tentativas de enganar o árbitro são imediatamente replicados, analisados e punidos por suas contrapartes virtuais. Se um atleta tentar simular um pênalti, o tribunal de silício o expõe em alta definição e ele é punido com o rigor das regras. O jogador está nu diante da máquina.

Do outro lado do apito, no entanto, os árbitros parecem habitar uma realidade paralela. Enquanto os atletas operam sob a vigilância de seus clones digitais, os juízes comportam-se como filhos únicos protegidos por todos. Quando um jogador falha, a punição é imediata: cartões, suspensões, perda de pontos para o clube e execração pública. Mas quem pune o juiz quando ele erra, mesmo tendo todo o arsenal de IA à sua disposição? No modelo atual, a punição para a arbitragem é burocrática, silenciosa e de bastidores. O juiz que comete um erro crasso não recebe um cartão vermelho no meio do campo. Ele é enviado temporariamente para a geladeira para passar por reciclagem ou apitar divisões inferiores. O dano ao campeonato está feito, e a autoridade que errou sai protegida pelo sistema, sem sofrer qualquer sanção transparente em tempo real.

Se a tecnologia é precisa o suficiente para mapear o milímetro do impedimento por meio de gêmeos digitais, ela não deveria também policiar a autoridade de quem apita? Errar é humano, mas errar com o apito na boca e o controle do jogo é infinitamente mais grave. Em uma visão estritamente simétrica de justiça, o árbitro que insistisse em ignorar as recomendações da cabine de vídeo, invertesse faltas de forma grosseira ou perdesse o controle disciplinar da partida deveria ser punido em tempo real. A IA ou a cabine do VAR poderiam aplicar advertências formais na tela do estádio. O acúmulo de dois “cartões amarelos técnicos” resultaria na expulsão imediata do juiz de campo, que seria substituído pelo quarto árbitro.

Claro, as entidades que controlam o esporte rejeitam essa hipótese para evitar o colapso da autoridade. Se o juiz pudesse ser expulso por seus próprios erros diante do público, o jogo se tornaria ingovernável e a pressão psicológica sobre a arbitragem seria insustentável. O futebol caminha, assim, para um paradoxo insolúvel: ao tentar eliminar o erro do esporte, a tecnologia acabou por escancarar o abismo que existe entre a punição implacável aplicada a quem joga e a condescendência reservada a quem apita. E o pior: acaba com a conversa de quem é apaixonado pelos lances incríveis e que duram uma eternidade nas discussões.

Nessa Copa vimos a arquibancada torcendo para o VAR. E isso lembra Gilberto Gil profetizando “poetas, seresteiros, namorados correi/ é chegada a hora de escrever e cantar/ talvez as derradeiras noites de luar”, escrita quando a Lunik 9 chegou à lua. O futebol perde a poesia declamada entre gritos e gargalhadas pelos poetas que olham para o futebol como um enigma apaixonante. E não uma certeza milimétrica, infalível e enfadonha.

Adalberto Viviani

Jornalista especializado em comportamento de consumo. Apaixonado por tecnologia e desvendando o universo da Inteligência Artificial.

15 de julho de 2026

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