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Nostalgia sintética: a IA pode finalmente “corrigir” o 7×1?

De simulações fotorrealistas a marcas ressuscitando lendas: o que acontece com a reputação do futebol quando o passado vira um arquivo editável?

Por: Tiago Souza

Créditos: Getty Images

Se a IA puder reescrever cada derrota para nos poupar da frustração, o futebol perde o sentido

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  • IA desenvolvida por Ashraf Elalamy propõe “corrigir” o 7 × 1 da seleção brasileira, recriando visualmente o jogo histórico.
  • O projeto, lançado em 2026, usa deep‑fake e restauração de imagens para reviver momentos como a final caipira do Campeonato Paulista de 1990.
  • Especialistas apontam limites éticos e a “crise da verdade”, destacando que algoritmos não podem simular plenamente emoções ou contextos.
  • O caso Lenovo, citado como exemplo de pirataria de marca, ilustra os riscos de reputação ao aplicar tecnologias de reconstrução digital.
Por Tiago Souza

 

O torcedor de futebol tem uma relação quase patológica com a memória. Somos capazes de lembrar dos participantes da final caipira do Campeonato Paulista de 1990, mas esquecemos o aniversário de casamento. Acima de tudo, somos apegados às nossas tragédias e glórias, muitas vezes gravadas em fitas VHS mofadas, onde o craque do time parece um amontoado de pixels correndo atrás de uma esfera borrada.

Mas e se a tecnologia pudesse “consertar” a história? E se pudéssemos limpar as arestas do passado e reescrever os roteiros que partiram nossos corações?

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A IA e o “E se…?” de bilhões

Essa provocação deixou de ser um exercício mental de mesa de bar e virou realidade digital. Recentemente, o influenciador egípcio Ashraf Elalamy viralizou nas redes sociais ao usar ferramentas de inteligência artificial para “corrigir” os maiores arrependimentos da história recente do futebol. No vídeo, Elalamy reescreveu o destino de grandes astros: impediu a saída de Lionel Messi do Barcelona, as idas de Kaká e Eden Hazard para o Real Madrid e até mesmo de Neymar para o PSG, afirmando que lá nunca ganharia o Bola de Ouro.

Já o brasileiro Vitor Paiva explodiu nas redes usando a mesma técnica com IA para um jogo no terrão de uma favela que mistura Cristiano Ronaldo, Messi e Neymar com Pelé e Maradona.

O sucesso estrondoso desses vídeos revela uma tendência comportamental fascinante: a nostalgia sintética. Não queremos apenas lembrar o passado. Queremos editá-lo. A IA de Elalamy e Paiva não entrega apenas uma animação de videogame, ela entrega a ilusão fotorrealista de uma realidade alternativa. Ela valida o nosso desejo infantil de que o mundo seja perfeito, mesmo que, para isso, tenhamos que maquiar a própria história.

O perigo de gourmetizar a realidade

Essa tentação de reescrever o passado para torná-lo mais palatável não é nova na cultura pop, mas a forma como a consumimos hoje é muito mais perigosa. No filme Yesterday (2019), o protagonista acorda em um mundo que simplesmente esqueceu a existência dos Beatles, permitindo que ele assuma a autoria das músicas e “melhore” a história da cultura pop. No futebol, estamos fazendo o mesmo: o torcedor moderno, anestesiado pela estética perfeita do Instagram, acha as imagens reais de Pelé ou Maradona “feias” ou “borradas” demais. Preferimos a mentira nítida em 4K gerada por uma GPU de última geração do que a verdade granulada do arquivo histórico.

E se em Forrest Gump (1994) o uso de efeitos visuais para inserir o protagonista ao lado de figuras como o presidente Kennedy era uma piada tecnológica inocente, agora virou estratégia de marketing pessoal. Qualquer usuário consegue fazer uso da imagem de jogadores do presente e do passado para um vídeo de ótima qualidade, cruzando uma linha ética complexa. Quem detém os direitos morais sobre a “performance sintética” de um atleta falecido? A reputação de um ídolo, que antes era selada no momento de sua morte, agora pode ser arrastada para campanhas publicitárias bizarras no metaverso por toda a eternidade, sem que ele possa dizer “não”.

A reputação do erro humano

Para os gestores de imagem e marcas esportivas, a nostalgia sintética cria um cenário de crise silenciosa. Se a tecnologia começar a “provar” por meio de simulações físicas que Roberto Baggio acertaria aquele pênalti de 1994 em 99% das vezes, o erro real passa a ser visto não como parte do drama humano, mas como um “bug” estatístico.

Ao tentarmos limpar o passado de todas as suas imperfeições, corremos o risco de destruir a única coisa que torna o futebol o esporte mais popular do planeta: a sua trágica e maravilhosa imprevisibilidade. A reputação dos nossos heróis não vem da perfeição dos seus acertos virtuais, mas justamente da coragem de falhar diante de milhões de pessoas.

Pra fechar!

A tecnologia nos deu o poder de dar um Ctrl+Z na história, mas a vida real não roda em um emulador. O valor do esporte mora no fato de que ele é definitivo. Se a IA puder reescrever cada derrota para nos poupar da frustração, o futebol perde o sentido.

A provocação para esta semana é: você prefere a dor real de um vice-campeonato ou o conforto anestésico de uma simulação perfeita onde seu time nunca perde? No fim do dia, até o 7×1, com todo o seu peso, foi real. E a realidade, por mais que doa, ainda é o único lugar onde a emoção é de verdade.

Tiago Souza

Jornalista e pesquisador com mais de 20 anos dedicados ao universo das HQs, livros, séries e filmes. Escreve a coluna PopTec. Porque o pop não vive sem tec. E tec é o que há de mais pop em um país em que existem mais smartphones do que pessoas.

11 de junho de 2026

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